Bíblia do CaminhoTestamento Xavieriano

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Antologia dos Imortais — Autores diversos — 1ª Parte


25

Américo Falcão


QUADRAS

  1 A vida compra a granel

  Na ilusão que a desfigura.

  O tempo cobra, fiel,

  À porta da sepultura.


*

  2 Medalha, comenda e pluma,

  Exigindo apreço e aceno,

  Parecem montões de espuma,

  Cobrindo sabão pequeno.


*

  3 Paixão é fogo por nada.

  Febre alta e recaída… n

  Tanta tinta derramada,

  Tanta conversa perdida. n


*

  4 Fitai o juízo à frente;

  Excesso, taça e folia

  Acabam frequentemente

  Na sala de anatomia.


*

  5 A lei é peso e medida;

  Tende cautela, mortais!

  Do que buscamos na vida,

  Na morte teremos mais.


ACENDALHAS

  1 Pensei que a morte ocultasse

  A noite pesada e fria,

  E a morte deu-me outra face

  Dos sonhos de cada dia.


*

  2 Acolhe, afaga e conserva

  O passo sem ilusão.

  Toda carne é igual à erva

  Que nasce e retorna, ao chão.


*

  3 Se a flama do amor te invade,

  Não tentes ócio e prazer.

  Amor é felicidade

  A refulgir no dever.


*

  4 O verbo enfeitado e ameno,

  De muita beleza humana,

  Parece mel com veneno

  Em taça de porcelana.


*

  5 Remorso fremindo em chaga,

  Na desculpa que alivia,

  É como a dor que se apaga

  Ao toque da anestesia.


*

  6 Esse diamante que vês,

  De faces luminescentes,

  Viveu séculos talvez

  No chavascal de serpentes.


*

  7 Ergue ao Céu a moradia

  Da própria felicidade.

  Na Terra toda alegria

  Paga imposto de saudade.


*

  8 Escritor que atende ao mal

  Dando o mal por satisfeito,

  Da pena talha o punhal

  Que, um dia, lhe vara o peito.


*

  9 Quando o corpo, inerte, expira,

  Notamos, amargamente,

  Quanta gente na mentira,

  Quanta mentira na gente. n


*

  10 Afirmas que é hipocrisia

  Sorrir para a falsidade.

  Mas que outra coisa seria

  O ensino da caridade?


*

  11 Humilhado! Mesmo assim,

  Perdão é a glória que levas.

  A noite ensombra o jardim,

  O jardim perfuma as trevas. n


*

  12 Muita cautela, Maria,

  Cuidado no coração.

  Um namoro, cada dia…

  Amor não é isso, não.


*

  13 Evita a palavra turva,

  Sê claro, de longe ou perto.

  Na estrada de muita curva,

  O desastre chega, certo.


*

  14 Não condenes quem resvala

  Onde o vício se avolume.

  Muita flor que enfeita a sala

  Nasceu na fossa de estrume.


*

  15 Desfaz-se a ostra em escolhos,

  Brilha a pérola na rua.

  A morte nos cerra os olhos,

  Mas a vida continua.


HISTÓRIAS EM QUADRINHAS

1 No sepulcro, em desconforto,

Quanta mágoa em Maristela!

A triste, buscando o morto,

E o morto, fugindo dela.


*

2 Noutra vida, o potentado

Batia, em fúria tremenda…

Hoje é um colono aleijado

Em sua velha fazenda.


*

3 Era paixão incomum…

No entanto, o tédio, depois,

Trouxe morte para um n

E obsessão para dois. n


*

4 Leontina, sempre enganada,

De tão vaidosa e faceira,

Embora desencarnada,

Não se desfaz da caveira.


*

5 Queria tanto conforto,

Carícias, redes e abanos,

Que mesmo depois de morto,

Dormiu por duzentos anos.


*

6 Sentava-se em mesa de ouro,

Passava fome por vício,

Mas deixou todo um tesouro

Na fossa do desperdício.


*

7 Outrora, sabia tudo,

Era um homem de apogeus.

Agora, é um doente mudo,

Rendendo graças a Deus.


AMÉRICO Augusto de Sousa FALCÃO — Fez os estudos primários e secundários em João Pessoa, formando-se, em 1908, pela Faculdade de Direito do Recife. Redator de A União e diretor da Biblioteca Pública do Estado da Paraíba. Sócio do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. “Poeta magnífico,” afirma Edgard Rezende (Os Mais…, pág. 179) — “produziu composições impregnadas de lirismo suave e encantador.” Era-lhe, porém, a trova um dos gêneros prediletos, e Luiz Pinto (Ant. da Paraíba, pág. 23) afirma ter sido ele, A. Falcão, “um repentista temido e de incomparável fecundidade”, a manejar com inteligência a sátira, sua insuperável arma de combate. (Praia de Lucena, Município de Santa Rita, Paraíba, 11 de Fevereiro de 1880 — João Pessoa, Paraíba, 9 de Abril de 1942.)

BIBLIOGRAFIA: Auras Paraibanas; Visões de Outrora; Soluços de Realejo; etc.



[1] Leia-se com hiato: Fe/bre/ al/ta.

[2] “Tanta… /Tanta…”: Anáfora — “Nome dado à FIGURA que resulta quando se repete a mesma palavra ou frase no começo de vários VERSOS, …” (Geir Campos, Op. cit.)

[3] Anáfora. Cf. nota anterior deste capítulo.

[4] “… o jardim,/ O jardim…”: Anadiplose — “Nome dado à FIGURA que resulta quando se repete no começo de um VERSO a palavra ou frase final do verso anterior, …” (Geir Campos, Op. cit.)

[5] Leia-se com hiato: pa/ra/ um.

[6] Quanto à palavra “o-b-ses-são”, cf. nota 1, do cap. 10, da 1ª Parte (suarabácti).


(Psicografia de Francisco C. Xavier)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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