Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Ave, Cristo! — Emmanuel — 1ª Parte


3

Compromisso do coração

1 Dois dias sucederam-se uniformes para Quinto Varro que, apático e melancólico, ouvia no lar as queixas infindáveis da esposa, azorragando-lhe os princípios com o látego da crítica insidiosa e contundente.

Embora as mágoas lhe oprimissem a alma, não deixou perceber qualquer sinal de desaprovação à conduta de Cíntia, que prosseguia ao lado de Vetúrio, entre excursões e entendimentos.

Recebendo, porém, a recomendação de partir na direção de um porto da Acaia,  †  não conseguiu sopitar o anseio de renovação do qual se via possuído.

Procurou Opílio, pessoalmente, e recebido por ele, com largas demonstrações de cavalheirismo, expôs o que desejava. Sentia-se necessitado de vida nova. Pretendia abandonar o tráfego marítimo e consagrar-se a tarefas diferentes, em Roma.

Contudo, confessava, com desapontamento, os débitos que o retinham ao serviço na frota.

Devia tão vasta soma ao chefe da organização que ignorava como encetar a mudança de caminho.


2 Vetúrio, revelando grande surpresa, buscou disfarçar os verdadeiros pensamentos que lhe brotavam no raciocínio. Risonho e acolhedor, abeirou-se do visitante, afirmando, peremptório, que jamais o considerara empregado e sim companheiro de trabalho, que nada lhe ficava a dever. Declarou compreender-lhe a fadiga e justificou-lhe o propósito de reajustar-se na vida romana.

Corado de vergonha, Varro recebeu dele a plena quitação de todas as dívidas. Opílio não só lhe fazia semelhante concessão, como também se colocava à disposição dele para qualquer novo empreendimento.

Indagou delicadamente dos planos que já houvesse delineado para o futuro, mas o esposo de Cíntia, atônito com o fingimento do interlocutor, mal sabia responder, alinhando monossílabos que lhe denunciavam a insegurança.


3 Despediram-se, cordialmente, prometendo Opílio acompanhar-lhe a trajetória, com carinho fraternal.

Sentindo-se profundamente desajustado, Quinto Varro dirigiu-se ao Fórum,  †  na perspectiva de encontrar alguém que lhe pudesse conseguir trabalho honrado; entretanto, a sociedade da época parecia dividir-se entre senhores poderosos e escravos misérrimos. Não havia lugar para quem quisesse viver de serviço enobrecedor. Os próprios libertos da cidade ausentavam-se para regiões distantes do Lácio,  †  buscando renovação e independência.

Efetuou variadas tentativas em vão.

Ninguém desejava ocupar braços honestos com remuneração condigna. Alegava-se que os tempos corriam difíceis, salientava-se a retração dos negócios com a provável queda de Bassiano [Septímio Bassiano, nome de nascimento de Caracala †  dum momento para outro. As insanidades governamentais tocavam a termo e os partidários de Macrino,  †  o prefeito dos pretorianos, prometiam revolta. Vivia Roma sob regime de terror. Milhares de pessoas haviam sido mortas, em pouco mais de cinco anos, por assassinos livres que desfrutavam polpudas  recompensas.


4 O jovem patrício, algo desalentado, fixava a multidão que ia e vinha, na praça pública, indiferente aos problemas que lhe torturavam a alma, quando lhe apareceu Flávio Súbrio, velho soldado de duvidosa reputação, abrindo-lhe braços acolhedores.

Homem maduro, mas ágil e manhoso, Súbrio fora ferido em serviço do Estado, ao manter a ordem nas Gálias,  †  razão por que, agora coxo, era utilizado por vários nobres em expedientes secretos. Longe de suspeitar estivesse ele atado aos interesses do perseguidor de sua família, Varro correspondeu, afetuoso, ao gesto de fraternidade que lhe era oferecido.

Aliás, aquela expressão prazenteira constituía-lhe valioso incentivo na posição de incerteza em que se achava. O súbito aparecimento do antigo soldado poderia ser o início de alguma empresa feliz.


5 A conversação foi encetada com êxito.

Depois de cumprimentá-lo, o ex-legionário atacou o assunto que o trazia, acentuando:

— Filho de Júpiter, como agradecer aos deuses o favor de encontrar-te? Serápis compadeceu-se de minha perna doente e guiou-me os passos. Comprometi-me a buscar-te, mas os tempos andam secos e um carro é privilégio de senadores. Felizmente, porém, não foi necessário moer os ossos na caminhada difícil.

O moço patrício sorria, intrigado, e antes que pudesse ensaiar qualquer pergunta, Súbrio relanceou o olhar astuto em torno, como se quisesse perscrutar o ambiente, e falou, baixando a voz:

— Meu caro Varro, sei que te desvelas por nossos compatriotas perseguidos, os cristãos. Francamente, por mim, não sei como separar-me dos numes domésticos e preferirei sempre uma festa de Apolo a qualquer reunião nos cemitérios, no entanto, estou convencido de que há muita gente boa no labirinto das catacumbas. Ignoro se frequentas o culto detestado, mas não desconheço a tua simpatia por ele. Com sinceridade, não posso atinar com a epidemia de sofrimento voluntário que presenciamos há tantos anos.


6 Nesse ponto das considerações, ajeitou mentirosa expressão de tristeza na máscara facial e prosseguiu:

— Apesar de minha indiferença para com o Cristianismo, aprendi com os nossos antepassados que devemos fazer o bem. Acredito haver soado o instante de prestares assinalado serviço à causa desprezada. Não compreendo a fé nazarena, responsável por tanta flagelação e tanta morte, contudo, apiado-me das vítimas. Por isso, filho dileto de Júpiter, não menoscabes a missão que as circunstâncias te oferecem.

Ante a muda ansiedade do interlocutor, acrescentou:

O pretor Galo, advertido por Macrino, necessita do concurso de alguém para certo serviço em Cartago.  †  Admito que, se efetuado por ti, poderá transformar-se em precioso aviso aos cristãos da África.


7 Varro, mais com o propósito de colocar-se em trabalho digno que com a ideia de erigir-se em salvador da comunidade, perguntou sobre a tarefa a executar.

Mostrando entusiasmo bem estudado, Súbrio esclareceu que o alto dignitário chamava-o a palácio para confiar-lhe delicado negócio.

O rapaz não vacilou.

Acompanhando o experiente lidador, procurou Galo, na própria residência, em vista do caráter confidencial que Súbrio imprimira à conversação.

O velho pretor, emoldurado nos mais arraigados costumes patrícios, recebeu-o, amenizando o rigor da etiqueta, e foi, sem rodeios, ao assunto, depois das saudações usuais.

— Varro — iniciou ele, solene —, conheço-te a lealdade aos compromissos assumidos e espero aceites importante incumbência. Nossas legiões proclamarão o novo imperador, em breves dias, e não podemos prescindir dos patriotas irrepreensíveis para auxiliar-nos a obra de reajuste social.


8 O hábil político mordeu os lábios murchos, revelando ocultar as verdadeiras intenções que o moviam, e continuou:

— Não sei se dispões de tempo adequado, de vez que não desconheço as obrigações que te prendem à frota de Vetúrio…

O jovem apressou-se em notificar-lhe o desligamento dos serviços habituais.

Achava-se realmente na expectativa de encargos novos.

O pretor sorriu, triunfante, e prosseguiu:

— Se me fosse possível a ausência de Roma, iria eu mesmo, entretanto…


9 Diante da frase reticenciosa, Quinto Varro indagou em que lhe poderia ser útil, ao que o magistrado ajuntou:

— Cartago deveria estar reduzida a cinzas, conforme o sábio conselho do velho Catão,  †  mas, depois do feito brilhante de Emiliano,  †  arrasando-a, Graco  †  fez a loucura de reconstruir aquele ninho de serpentes. Duvido haja outra província capaz de trazer-nos maiores aborrecimentos. Se é possível combater aqui a praga dos galileus, por lá o problema é cada vez mais complicado. Altos funcionários, damas patrícias, autoridades e homens de inteligência devotam-se ao Cristianismo, com tamanho desleixo por nossos princípios, que chegam a promover reuniões públicas para fortalecimento do proselitismo desenfreado. Não podemos, contudo, viver às cegas. Nossas providências não podem falhar.


10 Mergulhando os olhos indagadores no rapaz, como a sondar-lhe os mais íntimos sentimentos, interrogou:

— Estás habilitado a conduzir determinada mensagem ao Procônsul?

— Perfeitamente — informou Varro, decidido.

— Tenho uma relação de quinhentas pessoas que precisamos alijar da cidade. Não obstante o édito de Bassiano,  †  declarando cidadãos romanos todos os habitantes do mundo provincial, que passaram a desfrutar, indebitamente, direitos iguais aos nossos, concordamos na eliminação sumária de todos os portadores da mistificação nazarena. Os principais devem responder a processo, antes de sentenciados à morte ou ao cárcere, as mulheres serão poupadas, segundo a classe a que pertençam, depois de advertência justa, e os plebeus serão circunscritos em serviço nas galeras imperiais.


11 O moço patrício, esforçando-se por disfarçar as penosas impressões de que se via possuído, fazia sinais afirmativos com a cabeça, entendendo, por fim, o que significava a insinuação de Flávio Súbrio.

Aceitando o convite, conseguiria salvar muitos companheiros. Poderia penetrar Cartago, com tempo bastante para informar os perseguidos. Não lhe seria difícil. Teria consigo o nome de todos os implicados. Antes de falar ao Procônsul, comunicar-se-ia com a Igreja africana.

Um mundo de possibilidades construtivas aflorava-lhe na imaginação.

O próprio Corvino talvez pudesse orientá-lo na execução do encargo em perspectiva.

— Podes viajar de hoje a dois dias? — trovejou a voz de Galo, irritado com a pausa que o moço imprimira à conversação.

— Ilustre pretor — respondeu Varro, polidamente —, estou pronto.

Demonstrando despedi-lo com os gestos de enfado que lhe eram característicos, o magistrado concluiu:

— Seguirás na galera comercial de Máximo Pratense, sob o comando de Hélcio Lúcio. Amanhã à noite, entregar-te-ei a mensagem aqui mesmo e poderás combinar qualquer medida, referente à excursão, com Flávio Súbrio, que seguirá na mesma embarcação, como assessor do capitão, em tarefas de ordem política junto a amigos do Prefeito, domiciliados na Numídia.  † 

O entendimento terminara.


12 Em plena via pública, Varro, reconhecido, abraçou o ex-legionário, marcando um encontro no Fórum para o dia seguinte.

Embora amargosos pressentimentos lhe ocupassem o coração, com respeito ao filhinho, o jovem estava satisfeito. Alcançara, conforme supunha, o trabalho desejado. Não se sentia inútil. Ao regressar de Cartago, certo não lhe faltariam oportunidades outras. A viagem conferir-lhe-ia meios de auxiliar os irmãos na fé, representando igualmente o primeiro degrau de acesso a responsabilidades maiores.

Depois de rápida permanência no lar, dirigiu-se à via de Óstia,  †  ansioso por entrar em comunhão com os velhos amigos.

Anunciou a Corvino e Lisipo a decisão de partir.

O ancião gaulês comentou os obstáculos que vinha encontrando para sair de Roma e, interpelado por Varro, quanto ao porto a que se destinaria, esclareceu que lhe cabia visitar a comunidade cristã de Cartago, antes de tornar a Lião,  †  em definitivo.

O semblante do rapaz iluminou-se.


13 Porque não seguirem juntos?

Tinha roteiro idêntico.

Corvino vibrou de satisfação.

O moço patrício expôs em ligeiras palavras o seu plano de comunicar-se com Flávio Súbrio, quanto ao novo companheiro de viagem, guardando, porém, os reais objetivos da missão que o levava à África para entendimentos posteriores com Ápio Corvino, quando estivessem a sós, no mar.

No dia seguinte, quando apresentou o assunto ao velho soldado coxo, Súbrio acolheu a ideia com indefinível sorriso, acrescentando, bem humorado:

— Como não? O viajante pode ser tomado à conta de um parente. Tens esse direito.


14 Varro aprestou-se para a excursão de acordo com o programa previsto.

Comunicou à esposa a resolução de alterar os rumos do próprio destino, sendo ouvido por Cíntia com especial atenção. E, depois de particular entrevista com o pretor, despediu-se dela e de Taciano, com o espírito afogado em dolorosa emotividade.

Levando expressiva documentação, embarcou em Óstia, com a alma absorvida em angustiosas expectativas.

Corvino reuniu-se a ele, agradecido. Com o amparo do jovem patrício e de Flávio Súbrio, que estranhamente se desvelava na instalação dele, dispunha-se a partilhar a câmara estreita, reservada a Quinto Varro, junto ao alojamento do capitão, na popa, mas estacou no estrado, que separava o aposento dos bancos dos remadores, parecendo admirar a soberba trirreme  †  em que viajariam. Contemplava os mastros magníficos, contudo, alertado por Varro, satisfeito com a possibilidade de proporcionar-lhe o formoso espetáculo, o velhinho respondeu:

— Sim, observo a largueza do céu e do mar, batidos de sol; sinto as baforadas do vento livre que parece cantar a glória divina da Natureza, mas penso nos escravos calejados nos remos…


15 O pregador ia continuar, no entanto, Súbrio, que exercia inexplicável vigilância sobre ele, percebeu o sentido evangélico do apontamento, mostrou maior preocupação no semblante carrancudo e dirigiu-se a Quinto Varro, exclamando:

— Agasalhemos teu hóspede.

O moço patrício, contrariado com a interferência, expressou o desejo de apresentá-lo a Hélcio Lúcio, mas o assessor do comandante objetou, célere:

— Não, agora não. Hélcio está ocupado. Aguardemos um momento propício.

Corvino foi internado no beliche, com a sua reduzida bagagem, que se constituía de uma túnica surrada, uma pele de cabra e uma bolsa com documentos.


16 Para disfarçar a desagradável impressão deixada por Súbrio, em lhe cortando abruptamente a palavra, o rapaz deixou-se ficar demoradamente junto do ancião, escolhendo aquele minuto para estudar, em companhia dele, o verdadeiro sentido de sua viagem.

Corvino escutou-o, com visível espanto.

Conhecia os patriarcas cartagineses e os adeptos mais destacados da importante Igreja africana.

Varro deu-lhe a conhecer o nome das pessoas indicadas na relação do pretor, que o valoroso missionário identificou, em grande parte.

Trocaram impressões quanto à época perigosa que vinham atravessando e assentaram providências, como velhos amigos, para os dias mais escuros do porvir, caso as tempestades políticas não fossem amainadas.


17 O ancião das Gálias falou detidamente sobre a igreja de Lião.

Propunha-se, ali, consolidar o vasto movimento de assistência social, em nome do Cristo.

Os prosélitos não admitiam a fé inoperante. A igreja, no parecer deles, devia enriquecer-se de obras práticas, à maneira de fonte incessante de serviços redentores.

Recebiam, frequentemente, a visita de confrades da Ásia  †  e da Frígia,  †  dos quais obtinham instruções diretas para a materialização dos ideais evangélicos, e aceitavam a Boa Nova, não somente como senda de esperança para o Céu, mas também como plano de trabalho ativo no aperfeiçoamento do mundo.

E assim, de consideração a consideração e de apontamento a apontamento, permaneceram, ambos, absortos e felizes, estruturando projetos e avivando a chama rósea dos sonhos.


18 Quando o navio se pôs em movimento, Ápio Corvino sorriu para o companheiro, como se fora uma criança viajando para uma festa.

A princípio, ouviram as pancadas rítmicas dos martelos que controlavam a ginástica dos remadores, mas, em seguida, o vento começou a sibilar fortemente.

Varro ausentou-se, prometendo buscar o amigo a fim de apresentá-lo ao capitão; mais tarde, entretanto, Corvino pediu-lhe fosse adiada a visita para o dia seguinte, asseverando que pretendia orar e descansar.

O jovem afastou-se na direção da proa, onde passou a entender-se com alguns marinheiros. Tentou avistar-se com o comandante, mas Hélcio Lúcio, em companhia de Flávio Súbrio e de mais dois patrícios destacados, trocava ideias com eles, em mesa distante, conversando animadamente.


19 Anoitecera de todo.

Temendo a obrigação de sorver bebidas fortes, Varro refugiara-se em si mesmo.

Procurou a câmara em que se alojara, de modo a oferecer algum alimento ao velho companheiro, mas Corvino parecia dormir tranquilamente.

Vendo que Hélcio Lúcio e os amigos prosseguiam bebendo e jogando ruidosamente, a distância, o jovem patrício subiu à proa e buscou solitário recanto para dar largos voos ao pensamento.

Sentia sede de meditação e prece e suspirava por alguns minutos de silêncio, nos quais, a sós consigo, pudesse rememorar os sucessos dos últimos dias.

Contemplou as águas que a ventania cantante encrespava e deixou que as rajadas refrescantes lhe acariciassem os cabelos soltos, com a ideia de que os balsâmicos fluidos da Natureza lhe adoçariam as inquietações da cabeça atormentada.


20 Fascinado pela calma noturna, fitou a Lua crescente que se elevava no céu e vagueou o olhar pelas constelações faiscantes.

Que misterioso poder comanda a existência dos homens! — pensava em solilóquio triste.

Alguns dias antes, estava longe de supor-se na aventura de uma viagem como aquela. Acreditava-se num roteiro seguro de felicidade doméstica, amparado pelo mais amplo respeito social. Entretanto, notava o destino em franca transformação!… Onde estariam Cíntia e Taciano naquela hora? por que motivo a conduta da mulher lhe alterara daquele modo a vida?!… Sem a ideia do Cristo no coração, não contaria com maiores dificuldades para resolver os problemas que lhe atormentavam o íntimo, contudo, conhecera o Evangelho e não ignorava os testemunhos que lhe cabia mobilizar. Se pudesse sobrepor-se à influência de Opílio… No entanto, não seria lícito nutrir qualquer ilusão. Possuía parentes abastados em Roma que se incumbiriam da manutenção do filhinho, até que pudesse enfrentar as surpresas da sorte, com finanças mais firmes; todavia, na condição de adepto do Cristianismo, não seria justo impor à Cíntia o suplício moral de que se via objeto.

Detendo-se na visão da noite magnífica, orou fervorosamente, implorando a Jesus lhe aliviasse o espírito dilacerado.

Lembrava amigos presos e perseguidos por amor à fé sublime a que se dedicavam, arrimando-se nos exemplos de humildade da qual se faziam padrão vivo, e rogava ao Benfeitor Celeste não lhe permitisse a queda em desesperos inúteis.

Quanto tempo passou assim, consigo mesmo, na solidão?


21 Varro não pensava nisso, até que alguém lhe bateu nos ombros, arrancando-lhe os ouvidos da assoviada melopeia do vento.

Era Súbrio, que parecia conter a respiração, falando-lhe, desajeitado:

— Escolhido dos deuses, creio haver chegado o instante de nos entendermos francamente.

Havia naquelas palavras algo estranho, cuja significação Varro buscou debalde.

O coração bateu-lhe descompassado, no peito. Aquela fisionomia pálida do companheiro habitualmente tão cínico denunciava algum doloroso acontecimento, contudo, não se sentiu suficientemente corajoso para indagar.

— Há muitos anos — prosseguiu o soldado —, recebi de teu pai um favor que jamais conseguirei esquecer. Salvou-me a vida na Ilíria e nunca pude ajudá-lo em parte alguma. Prometi, porém, à minha denegrida consciência o resgate dessa dívida e admito que hoje posso atender ao compromisso que o tempo não conseguiu apagar…


22 Mergulhando os olhos felinos no semblante torturado do rapaz, continuou:

— Acreditas que o pretor tenha solicitado a tua cooperação por julgar-te bastante maduro? admites que Hélcio Lúcio ceder-te-ia um lugar ao lado dos seus próprios alojamentos, por achar-te simpático? Filho de Júpiter, sê mais avisado. Opílio Vetúrio tramou com eles a tua morte. O teu destaque social não lhe ensejava uma arbitrariedade em Roma, onde, aliás, espera conquistar-te a mulher. Lastimo-te a mocidade cercada de tão poderosos inimigos. Hélcio guarda instruções para atirar o teu cadáver, ainda hoje, ao seio das águas. Alguém foi indicado para roubar-te a vida. Para a sociedade romana, deves desaparecer, nesta noite, para sempre…


23 Escutando semelhantes palavras, Quinto Varro fez-se lívido.

Imaginou-se à frente dos derradeiros instantes no mundo.

Quis falar, mas não conseguiu. Intensa emoção constringia-lhe a garganta.

Observando a expressão indefinível do olhar de Súbrio, presumiu que o assessor do comando vinha exigir-lhe a vida.

Porque a pausa se anunciasse mais longa, reuniu todas as forças que lhe restavam e perguntou:

— Que queres de mim?

— Quero salvar-te — informou o soldado com ironia.


24 E, depois de certificar-se da ausência de outros ouvidos na sombra, ajuntou:

— Mas preciso salvar a mim também. Devo ajudar-te, sem esquecer-me…

Segredando quase, acentuou:

— Uma vida, por vezes, pede outra. Esse velho que te acompanha é meu conhecido. É um macróbio gaulês, fatigado de viver. Sei que arengou nas catacumbas, pedindo esmolas aos parvos… Certo, dominou-te com mágicas, no intuito de ganhar um prêmio de viagem a Cartago. A peregrinação dele, porém, será mais longa. Deixei que embarcasse, em nossa companhia, propositadamente. Era a única solução para o meu enigma. Como defender a tua cabeça sem comprometer a minha? Ápio Corvino…

O moço patrício ouvia a confidência, trêmulo de pavor, mas, no instante em que o nome do amigo era pronunciado, fez um esforço supremo e inquiriu:

— Que ousas insinuar?


25 Flávio Súbrio, entretanto, era demasiado frio para empolgar-se de compaixão. Embora desapontado com o sofrimento moral que impunha ao interlocutor, sorriu mordaz e aclarou:

— Ápio Corvino morrerá em teu lugar.

— Não! isso não! — clamou Varro, sem forças para enxugar o suor da fronte.

Fez menção de seguir até à popa, apressadamente, mas Súbrio deteve-o, murmurando:

— É tarde. Alguém já manejou um punhal.

Varro, qual se fora ferido de morte, sentiu-se baquear.

Reuniu, contudo, todas as energias que lhe restavam e ensaiou o impulso de arrojar-se para a câmara em que se instalara; todavia, o assessor conteve-o, de um salto, advertindo:

— Cuidado! Hélcio pode observar-te. É possível que o ancião esteja morto, mas, se pretendes ouvir-lhe qualquer adeus, segue, cautelosamente… Entreterei o comandante e os amigos, por mais algum tempo, e procurar-te-ei no aposento, antes de conduzir Lúcio até lá.


26 Nesse ponto da conversação, abandonou o companheiro à própria dor e afastou-se.

O moço, contendo o pranto que se lhe represava no peito, arrastou-se, a enlouquecer de angústia, até ao alojamento, onde Corvino, amordaçado, mostrava larga rosa de sangue na cobertura de linho alvo.

Os olhos do ancião pareciam mais lúcidos. Cravou-os no amigo com a ternura de um pai, a despedir-se de um filho querido, antes da longa viagem da morte.

— Quem foi o miserável que se atreveu? perguntou Quinto Varro, libertando-lhe os movimentos da boca amordaçada.


27 Sustentando o tórax, com a destra rugosa, o velhinho esforçou-se e falou:

— Filho meu, porque encolerizar o coração, quando precisamos de paz? Acreditas, acaso, que alguém nos possa ferir sem a permissão de Deus? Acalma-te. Temos poucos instantes de entendimento.

— Mas, o senhor é tudo o que tenho agora! meu benfeitor, meu amigo, meu pai!… — clamou o rapaz, soluçando, de joelhos, como se quisesse beber as palavras ainda firmes do ancião.

— Eu sei, Varro, como te sentes — explicou Ápio, em voz sumida —, eu também reconheci, de pronto, em teu devotamento, o filho espiritual que o mundo me negou… Não chores. Quem te disse que a morte possa representar o fim? Muitos companheiros nossos já vi sob a coroa da flagelação gloriosa. Todos partiram para o reino celeste, exaltando o Mestre da Cruz e, enquanto os anos me estragavam o corpo, muita vez indaguei por que razão vinha sendo poupado… Temia não merecer do Céu a graça de morrer em serviço, todavia, agora estou em paz. Tenho a felicidade do testemunho e, para cúmulo de minha alegria, tenho alguém que me ouve no limiar da vida nova…


28 O velho fez longo intervalo para recobrar as energias e Quinto Varro, acariciando-o, em lágrimas abundantes, acrescentou:

— Como é difícil resignar-me à injustiça! o senhor está morrendo em meu lugar…

— Como podes crer assim, meu filho? A Lei Divina é feita de equilíbrios eternos. Não te revoltes, nem blasfemes. Deus dirige. Cabe-nos obedecer…

Após ligeira pausa, prosseguiu:

— Eu era pouco mais velho que tu, quando Átalo se foi… Despedaçou-se-me o coração, quando o vi marchando para o sacrifício. Antes, porém, de entrar no anfiteatro, conversamos no cárcere… Prometeu acompanhar-me os passos, depois da morte, e voltou a orientar-me. Nas horas mais aflitivas do ministério e nos dias cinzentos de tristeza e indecisão, vejo-o e escuto-lhe a palavra, junto de mim. Quem poderia admitir no túmulo o marco da separação para sempre? não podemos olvidar que o próprio Mestre regressou do sepulcro para fortalecer os aprendizes…


29 Varro abraçou-o, com mais ternura, e aduziu:

— O senhor tem fé e virtudes que estou longe de possuir. Doravante, sentir-me-ei sozinho, sozinho…

— Onde situas a confiança em Deus? És moço. Os dias amadurecem a experiência. Atende às instruções do Mestre e nova luz brilhará em tua alma… Em Lião, muitos de nossos irmãos relacionam-se com os mortos, que são simplesmente os vivos da eternidade. Em nossos ofícios, comunicam-se conosco e amparam-nos cada dia… Em muitas ocasiões, nos martírios, tenho visto companheiros que nos precederam recebendo os que são perseguidos até o sangue… Acredito, pois, que poderemos continuar sempre juntos… A Igreja, para mim, não é senão o Espírito do Cristo em comunhão com os homens…


30 Nesse instante, Corvino arquejou penosamente. Fitou no amigo os olhos calmos, com mais insistência, e prosseguiu:

— Sei que te vês relegado à solidão, sem parentes, sem lar… Mas não te esqueças da imensa família humana. Por muitos séculos, ainda, os servidores de Jesus serão almas desajustadas na Terra… Nossos filhos e irmãos encontram-se dispersos em toda a parte… Enquanto houver um gemido de dor no mundo ou uma nesga de sombra no espírito do povo, nossa tarefa não terminará… Por agora, somos desprezados e escarnecidos, no caminho do Pastor Celeste que nos legou o sacrifício por abençoada libertação e, amanhã, talvez, legiões de homens tombarão pelos princípios do Mestre, que, sendo tão simples em seus fundamentos, provocam o furor e a reação das trevas que ainda governam as nações… Morreremos e renasceremos na carne muitas vezes… até que possamos contemplar a vitória da fraternidade e da verdadeira paz… Contudo, é indispensável amar muito para, antes, vencermos a nós mesmos. Nunca odeies, filho meu! Bendize constantemente as mãos que te ferirem… Desculpa os erros dos outros, com sinceridade e pleno olvido de todo mal. Ama e ajuda sempre, ainda mesmo os que te pareçam duros e ingratos… Nossas afeições não desaparecem. Quem exercita a compreensão do Evangelho acende lume no próprio coração para clarear a senda dos entes queridos, na Terra ou além da morte… Tua mulher e teu filhinho não se perderam… Tornarás a encontrá-los em novo nível de amor… Até lá, porém, luta na conquista de ti próprio!… O mundo reclama servidores leais ao bem… Não procures riquezas que o desengano enferruja… Não te prendas a ilusões e nem exijas da Terra mais do que a Terra te possa dar… Só uma felicidade jamais termina — a felicidade do amor que honra a Deus no serviço aos semelhantes…


31 Em seguida, descansou por alguns momentos.

Com muita dificuldade, retirou de sob a túnica velha bolsa ensebada, que continha um punhado de moedas, e deu-a ao rapaz, solicitando:

— Varro, na igreja de Lião, existe um antigo pregador de nome Horácio Níger. É meu companheiro de trabalho, a quem te peço apresentar minhas notícias e saudações… Quando possível, entrega-lhe as cartas de que sou mensageiro e, em meu nome, confia-lhe estes recursos… Dize-lhe que é tudo quanto pude recolher em Roma, em favor das nossas crianças, asiladas na igreja…

O moço recebeu o depósito com respeitosa ternura.


32 Logo após, com muito esforço, Corvino pediu-lhe abrisse alguma página cristã para a leitura em voz alta.

Queria guardar um pensamento das Sagradas Anotações, antes de morrer.

Quinto Varro atendeu com presteza.

Retirou, ao acaso, uma folha gasta do pergaminho, num rolo de instruções, e, à claridade bruxuleante da tocha que ardia junto ao leito, repetiu as belas palavras de Simão Pedro ao aleijado da Porta Formosa: — “Ouro e prata não tenho, mas o que tenho, isso te dou.” n

Corvino fitou o companheiro, desenhando largo sorriso nos lábios descorados, como a dizer que oferecia naquela hora a Deus e aos homens o seu próprio coração.

Compridos instantes desdobraram-se pesados e aflitivos.


33 O rapaz julgou que o venerando amigo houvesse alcançado o derradeiro minuto, todavia, o ancião, qual se despertasse de curta mas concentrada prece, falou ainda:

— Varro, se possível… desejaria ver o céu, antes de morrer…

O interpelado atendeu, de pronto.

Descerrou pequena abertura do interior da câmara, que funcionava à guisa de janela.

O vento entrou, de imediato, em lufadas fortes e frescas, apagando a luz mortiça, mas o luar, em prateado jorro, invadiu o recinto.

Com inexcedível carinho, o rapaz tomou o velho ao colo, dando a ideia de satisfazer a criança doente, e conduziu-o à magnífica visão da noite.


34 Ao doce clarão da Lua, o semblante de Ápio Corvino assemelhava-se a vivo retrato de algum antigo profeta que surgisse, ali, de improviso, nimbado de esplendor. Seus olhos serenos e brilhantes devassaram o firmamento, onde multidões de estrelas faiscavam, sublimes…

Depois de um minuto de silenciosa expectativa, falou em voz apagada:

— Como é linda a nossa verdadeira pátria!…

E, voltando-se com brandura para o moço em lágrimas, concluiu:

— Eis a cidade de nosso Deus!…


35 Nesse instante, contudo, o corpo do patriarca foi sacudido por uma onda de vida nova. Seu olhar, que empalidecera, devagarinho, voltou a possuir estranho brilho, como que reanimado por milagrosa força.

Denunciando uma alegria desvairada, bradou:

— Abriu-se o grande caminho!… É Átalo que vem!. Ó meu Deus, como é sublime o carro de ouro!… Centenas de estrelas brilham!… Oh!… é Átalo e Maturo, Santo e Alexandre… Alcibíades e Pôntico… Pontimiana e Blandina… n

O ancião ensaiava o gesto de quem se dispunha a cair de joelhos, totalmente esquecido da presença de Varro e da precariedade da própria condição física.

— Oh!… Senhor! quanta bondade!… não mereço!… sou indigno!… — continuava dizendo, em voz arrastada.


36 O pranto escorria-lhe agora dos olhos inexplicavelmente revigorados, contudo, Varro, cuidadosamente, reconduziu-o ao leito manchado de sangue.

Novamente deitado, o velhinho calou-se. Todavia, aos raios do luar que iluminava a câmara, o moço patrício viu-lhe o olhar, nas vascas da morte, coroado de indefiníveis fulgurações, parecendo fixar paisagens festivas, em santo deslumbramento.

Com as mãos nas dele, notou que o agonizante lhe apertava a destra, a despedir-se.

A corrente sanguínea parecia contida pela força mental do moribundo, interessado em satisfazer aos últimos deveres, mas, quando a tranquilidade se lhe estampou na fisionomia engelhada e nobre, o sangue jorrou abundantemente da chaga aberta, encharcando o sudário de linho.


37 O rapaz notou que o fatigado coração do apóstolo parou devagar, à maneira de máquina agindo sem violência. A respiração desapareceu, como a de um pássaro que adormece na morte. O corpo inteiriçou-se.

Varro compreendeu que era o fim.

Sentindo-se, então, vergastado por uma dor sem limites, abraçou-se ao cadáver, suplicando:

— Corvino, meu amigo, meu pai!… Não me abandones! De onde estiveres, protege-me os passos. Não me deixes cair em tentação. Fortalece-me o ânimo fraco! Dá-me fé, paciência, coragem…


38 Os soluços do jovem repetiam-se abafados, quando a porta foi escancarada, estrepitosamente, e Súbrio entrou com uma tocha, iluminando o quadro doloroso. Vendo o rapaz agarrado ao morto, sacudiu-o, violento, exclamando:

— Louco! que fazes? o tempo é precioso. Em breves minutos, Hélcio virá. É indispensável que não te encontre. Embriaguei-o para salvar-te. Não poderá ver o semblante do morto.

Afastou Quinto Varro, brutalmente, e envolveu o corpo agora inerte no grande lençol, que foi amarrado acima da cabeça hirta. Em seguida, dirigiu-se, de novo, ao rapaz, em voz baixa e enérgica:

— À esquerda, encontrarás uma escada, esperando-te e, sob a escada, há um bote que eu mesmo preparei. Foge nele. O vento levar-te-á para a costa. Mas, ouve! busca outras terras e muda de nome. A partir de hoje, para Roma e para a tua família, estás sepultado nas águas.


39 O moço quis reagir e enfrentar dignamente a situação, contudo, lembrou que, se Corvino lhe havia tomado o lugar na morte, cabia-lhe substituí-lo na vida, e, sentindo numa das mãos o peso da bolsa que o herói lhe havia confiado, silenciou, humilde, em lágrimas.

— Conduze contigo a bagagem do velho, mas deixa os teus documentos — avisou Flávio Súbrio, decidido —; Opílio Vetúrio deve certificar-se de que desapareceste para sempre.

Todavia, quando o jovem reunira nas mãos a herança do apóstolo, o bastão de Hélcio Lúcio tocou rudemente a porta.

Súbrio arrastou Varro para trás de um armário de bordo e atendeu.

O comandante ébrio entrou, desferiu uma gargalhada seca, ao observar o fardo ensanguentado, e falou:

— Muito bem, Súbrio! A tua eficiência é de pasmar. Tudo pronto?

— Perfeitamente — esclareceu o assessor, em atitude servil.


40 Cambaleando, Hélcio aplicou algumas bastonadas no cadáver e observou:

— Grande maroto, o nosso Opílio. Este pobretão de Varro poderia ter sido liquidado em qualquer viela de Roma. Porque semelhante homenagem, a de matá-lo no mar? Enfim, compreendo. Um patrício decente nunca deve ferir a sensibilidade de uma bela mulher.

Reclamou do auxiliar a documentação do morto e, em voz pitoresca, determinou:

— Dá comida aos peixes, ainda hoje, e não nos esqueçamos de esclarecer a nobre Cíntia Júlia de que o marido, em missão de vigilância contra a praga nazarena, foi assassinado por escravos cristãos na galera…

Com uma risada sarcástica, acentuou:

— Vetúrio incumbir-se-á de dizer o resto.


41 O comandante despediu-se e, instado por Súbrio, Varro lançou um derradeiro olhar nos despojos do amigo. Carregando consigo as lembranças dele, afastou-se em passos vacilantes, desceu a escada de serviço e instalou-se no bote minúsculo.

Sozinho, na noite fria e clara, demorou-se longamente, no barco, pensando, pensando…

O vento, a silvar, parecia lamber-lhe o pranto, induzindo-o a marchar para a frente, mas o moço, pungido por amarga incerteza, no íntimo desejava arrojar-se ao mar e igualmente morrer.

Corvino, porém, marcara-lhe o coração para o resto da vida. O sacrifício dele impunha-lhe valorosa coragem. Era necessário lutar. Para Cíntia e para o filhinho querido não mais existia, entretanto, havia um claro na igreja de Lião, que lhe competia preencher.

Custasse o que custasse, alcançaria as Gálias com a resolução de devotar-se à grande causa.


42 Confiando-se a Deus, o moço desamarrou o bote e, com uma e outra remada, rendeu-se à ventania.

Indiferente aos perigos da viagem, não experimentou qualquer temor da solidão sobre o abismo.

Arrastado fortemente sobre as águas, deu em extensa praia ao amanhecer.

Trocou de vestimenta, envergando a túnica surrada de Corvino e, resoluto, atirou o nobre traje patrício ao mar, deliberando volver ao mundo na feição de outro homem.

Acolhido numa aldeia litorânea, onde conseguiu alimento, peregrinou até alcançar Terracina,  †  florescente cidade balneária do Lácio.

Não teve dificuldade para identificar o domicílio de alguns companheiros de fé. Apesar do terror que espalhava na vida pública, o governo de Bassiano-Caracala deixava os cristãos em relativo repouso, embora a severa vigilância com que lhes seguia os movimentos.


43 Declarando-se caminheiro do Evangelho em trânsito para as Gálias, Varro, fatigado e enfermo, encontrou socorro na residência de Dácio Acúrsio, piedoso varão que mantinha um albergue destinado a indigentes.

Amparado por amigos anônimos, delirou três dias e três noites, em febre alta; todavia, a mocidade robusta venceu a moléstia que o absorvera, de assalto.

Porque nada pudesse informar, a princípio, com referência a si próprio, e em face das mensagens que conduzia, da parte dos cristãos de Roma aos confrades lioneses, nas quais o portador era nomeado como sendo o “irmão Corvino”, por essa designação passou a ser tratado entre as suas novas relações.

Animado de inspiração superior, ensinou a Boa Nova, pregando em lágrimas, e a comunidade de Terracina,  †  tangida nas fibras mais íntimas, não obstante desejasse retê-lo, auxiliou-o em sua viagem para as Gálias, onde o rapaz aportou, depois de inúmeras dificuldades e enormes privações.


44 Findo certo período de permanência em Massília, n chegou finalmente à cidade a que se destinava.

Lião, pela sua admirável posição geográfica, desde a ocupação do procônsul Munácio Planco,  †  tornara-se expressivo centro político administrativo do mundo gaulês. Para ela convergiam diversas estradas importantes, convertendo-se, por isso mesmo, em residência quase que obrigatória de numerosas personalidades representativas da nobreza romana.

Vipsânio Agripa,  †  o genro de Otávio,  †  fortalecera-lhe a situação privilegiada, ampliando-lhe as vias de comunicação. Áulicos da corte de Cláudio  †  haviam construído nela magníficos palácios. As ciências e as artes, o comércio e a indústria aí floresciam com imensa vitalidade. Dentro de seus muros, reuniam-se, anualmente, junto do famoso altar de Roma e Augusto, as grandes assembleias do “Concilium Galliarum”,  †  no qual cada cidade das três Gálias possuía o seu representante.

As festas do primeiro dia de agosto, em memória do grande imperador Caio Júlio César Otaviano,  †  eram aí celebradas com significativas solenidades. Numerosas embaixadas e milhares de estrangeiros aí se congregavam em cerimônias brilhantes, em que o juramento de fidelidade aos deuses e às autoridades se renovava, com jubilosas manifestações.


45 A cidade, que fora em outro tempo a metrópole dos segusiavos, desde a ocupação imperial passara a viver sob o mais apurado gosto latino. Situada na confluência de dois rios, o Ródano  †  e o Saona,  †  oferecia aos habitantes as melhores condições de conforto. Dominada pela influência patrícia, mostrava ruas e parques bem cuidados, templos e monumentos de grande beleza, teatros e balneários, além de vilas soberbas, a se destacarem do casario vulgar, como pequenos castelos encantadores, emoldurados em jardins e vinhedos, onde magistrados e guerreiros, artistas e libertos ricos da capital do mundo se insulavam para gozar a vida.

Ao tempo de Bassiano-Caracala,  †  a quem servira de berço, Lião alcançara imenso esplendor.

O novo césar, por várias vezes, dispensara-lhe graças especiais.

A corte aí se reunia, frequentemente, em jogos e comemorações.


46 Contudo, apesar da proteção que o imperador concedia ao torrão pátrio, a cidade guardava, ainda, em 217, dolorosas e vivas reminiscências da matança de 202, determinada por Séptimo Severo.  †  Anos depois do triunfo sobre o General Décio Clódio Séptimo Albino,  †  o eleito das legiões da Bretanha, morto em 197, instigado por seus conselheiros, o vencedor de Pescênio Níger  †  promulgou um edito de perseguição. Autoridades inescrupulosas, depois de senhorearem o patrimônio de todos os cidadãos contrários à política dominante, realizaram tremenda carnificina de cristãos, dentro da cidade de Lião e nas localidades vizinhas.

Milhares de seguidores do Cristo haviam sido flagelados e conduzidos à morte.

Por vários dias perdurou a perseguição, com assassínios em massa.

Postes de martírio, espetáculos de feras, cruzes, machados, fogueiras, lapidações, chicotes e punhais, sem nos reportarmos às cenas de selvageria para com mulheres e crianças indefesas, foram postos em prática por tropas inconscientes.


47 Durante a matança, Ireneu,  †  o grande bispo e orientador da coletividade evangélica da cidade, foi torturado, com todos os requintes da violência perversa, até ao último suspiro. Nascido na Ásia Menor,  †  fora aprendiz de Policarpo,  †  o abnegado e mui venerado sacerdote de Esmirna, que, por sua vez, havia recebido a fé por intermédio do Apóstolo João, o evangelista.

A igreja de Lião, em razão disso, sentia-se depositária das mais vivas tradições do Evangelho. Possuía relíquias do filho de Zebedeu e de outros vultos do Cristianismo nascente, que lhe fortaleciam o ânimo na fé: Em seu círculo de profunda iluminação espiritual achava-se quase intacto o espírito piedoso da comunidade de Jerusalém.

Enquanto Roma fora iniciada por batismos de sangue, ao tempo de Nero,  †  a comunidade lionesa começara o serviço de evangelização em relativa calma.

Emissários da Palestina,  †  da Frígia,  †  da Síria,  †  da Acaia  †  e do Egito  †  visitavam-na, incessantemente.

As epístolas enviadas da Ásia  †  clareavam-lhe e marcha.

Por esse motivo, era o centro de porfiados estudos teológicos, no campo das interpretações.


48 Ireneu dedicara-se a minuciosas observações da Escritura. Manejando o grego e o latim com grande mestria, escreveu expressivos trabalhos, refutando os adversários da Boa Nova, preservando as tradições apostólicas e orientando os diversos serviços da edificação cristã.

Mas a coletividade não se caracterizava tão somente pelas realizações intelectuais.

Fazendo do santuário consagrado a São João o centro dos seus trabalhos de ordem geral, a igreja primava pelas obras de assistência.

Dificilmente, à distância de séculos, poderá alguém perceber, com exatidão, a sublimidade do Cristianismo primitivo.

Experimentados pela dor, amavam-se os irmãos na fé, segundo os padrões do Senhor.

Em toda a parte, a organização evangélica orava para servir e dar, em vez de orar para ser servida e receber.


49 Os cristãos eram conhecidos pela capacidade de sacrifício pessoal, a bem de todos, pela boa vontade, pela humildade sincera, pela cooperação fraternal e pela diligência que empregavam no aperfeiçoamento de si mesmos.

Amavam-se reciprocamente, estendendo os raios de sua abnegação afetiva por todos os núcleos da luta humana, jamais traindo a vocação de ajudar sem recompensa, ainda mesmo diante dos mais renitentes algozes.

Ao invés de fomentarem discórdia e revolta, entre os companheiros jungidos à canga da escravidão, honravam no trabalho digno a melhor maneira de amparar-lhes a libertação.

Sabiam apagar os pruridos do egoísmo para abrigarem, sob o próprio teto, os remanescentes das perseguições.

Inflamados de fé na imortalidade da alma, não receavam a morte. Os companheiros martirizados partiam como soldados de Jesus, cujas famílias, na retaguarda, lhes cabia proteger e educar.


50 Assim é que a comunidade de Lião guardava sob a sua custódia de amor centenas de velhos, enfermos, mutilados, mulheres, jovens e crianças.

A igreja de São João era, pois, acima de tudo, uma escola de fé e solidariedade, irradiando-se em variados serviços assistenciais.

O culto reunia os adeptos para a prece em comum e para a extensão das práticas apostólicas, mas os lares de fraternidade multiplicavam-se, como impositivo da obra espiritual em construção.

Muitas organizações domésticas tomavam a si a guarda de órfãos e o cuidado para com os doentes; todavia, ainda assim, o número de necessitados era invariavelmente, muito grande.

A cidade fora sempre um ponto de convergência para os estrangeiros. Perseguidos de vários lugares batiam às portas da igreja, implorando socorro e asilo.

A autoridade da fé, expressa nos irmãos mais velhos e mais experientes, designava diáconos para diversos setores de ação.

Os serviços de amparo e educação à infância, de conforto aos velhinhos abandonados, de sustentação dos enfermos, de cura dos loucos, distribuíam-se em departamentos especiais, expandindo-se, assim, em moldes mais completos, a primitiva organização apostólica de Jerusalém, na qual as obras de amor do Cristo, junto aos paralíticos e cegos, leprosos e obsessos, encontraram a melhor continuidade.


51 Todos os irmãos partilhavam o esforço da instituição entre o trabalho profissional que lhes determinava o dever ao lado da família e as atividades evangélicas que lhes assinalavam a obrigação de discípulos da Boa Nova, junto da Humanidade.

Num crepúsculo de harmoniosa beleza, Quinto Varro, agora transformado em “irmão Corvino”, chegou à sala acanhada e pobre destinada às pregações da igreja de São João, onde, segundo informações obtidas, encontraria Horácio Níger para o anelado entendimento.

Num ângulo do recinto, um velho de longas barbas encanecidas, de rosto avelado e nobre, ouvia jovem senhora de amargurado semblante.

Levantou-se, atencioso, para receber o recém-chegado, fê-lo sentar-se ao lado dele, no banco de pedra, e continuou a conversar com a dama, em tom paternal.


52 Tratava-se de humilde viúva que procedia de Valença,  †  implorando socorro. Ficara sem o marido na carnificina de 202. Desde então, morava com o genitor e um tio na localidade mencionada, mas, a contragosto, envolvera-se em grande infortúnio.

Por negar-se aos caprichos de um soldado influente, vira os dois familiares, com os quais residia, assassinados numa noite de angustiosa provação.

Disposta a resistir, mas totalmente desamparada, fugira dali, em busca de abrigo.

Chorando, acentuava, triste:

— Pai Horácio, não me abandones…Não temo o sacrifício por nosso Divino Mestre, contudo, não concordo em render-me ao vício dos legionários. Conserva-me, por amor de Jesus, nos serviços da igreja…


53 O interpelado observou, atento:

— Sim, não me oponho. Entretanto, é preciso esclarecer que não possuímos serviço remunerado…

— Não procuro compensações — disse a moça —, tenho necessidade de arrimo.

— Então — explicou o interlocutor, satisfeito —, cooperarás no galpão dos velhos enfermos. Realmente, perdeste o pai e o tio, no entanto, encontrarás muitos outros parentes, junto dos quais o Cristo te pede carinho e proteção.

A humilde senhora sorriu tranquila e retirou-se.


54 Chegou a vez de o peregrino romano entrar em contato com o ancião.

Varro, comedido e confiante, inteirou-o de todas as ocorrências havidas com Ápio Corvino e com ele mesmo, desde o início do seu primeiro encontro com o inolvidável amigo apunhalado no mar.

Horácio ouviu-lhe a narrativa, entre sereno e cortês, sem qualquer alarme, diante do noticiário constrangedor.

Parecia calejado por dores maiores. Mesmo assim, quando o rapaz terminou a confissão, falou sobre o amigo morto, comovidamente:

— Grande Corvino!… Seja ele feliz entre os servidores glorificados. Foi fiel até ao fim.


55 Enxugando os olhos úmidos, acrescentou:

— Estará conosco em espírito. A morte não nos separa uns dos outros, na obra do Senhor.

Em seguida, reportou-se ao companheiro desaparecido, com imensa ternura. Ápio Corvino tomara a si o encargo de prover às necessidades das crianças mantidas pela igreja. Para esse fim, trabalhava em agricultura e jardinagem, além de viajar frequentemente, angariando recursos.

Depois de 177,  †  estivera largo tempo no Egito, onde adquirira valiosas experiências.

Os meninos adoravam-no.

A senectude não lhe subtraíra o entusiasmo pelo trabalho. Cultivava o solo com alegre bando de rapazes, aos quais ministrava preciosos conhecimentos.


56 Assinalou, preocupado, a falta que a presença dele lhes faria, mas, ante o oferecimento de Varro para substituí-lo quanto lhe fosse possível, Horácio alegrou-se intensamente, e acentuou:

— Bem lembrado. Aqui, na maioria dos casos, os colaboradores da igreja trabalham de acordo com os desajustes espirituais de que são portadores. As perseguições constantemente alimentadas provocam, entre nós, diversos tipos de luta e sofrimento. Sei que trazes o coração paterno mortificado de saudades. Trabalharás pelas crianças. Temos mais de trinta órfãos pequeninos. Conversarei com as autoridades.

E, em voz mais baixa, rogou-lhe que a personalidade de Quinto Varro fosse para sempre esquecida. Apresentá-lo-ia a todos como sendo o irmão Corvino, sucessor do venerável confrade, chamado ao Reino de Deus, e afiançava-lhe que tantas nuvens de dor pesavam sobre a alma cristã, formando dramas tristes a se desenrolarem na sombra, que ninguém se sentia com bastante curiosidade para qualquer indagação.


57 O acolhimento carinhoso reaquecia o coração do viajante fatigado, quando dois petizes, de três e cinco anos, respectivamente, penetraram o recinto.

O maior deles dirigiu-se ao ancião com os olhos interrogadores e perguntou:

— Pai Horácio, é verdade que o vovô Corvino já veio?

O patriarca afagou-lhe os cabelos encaracolados e informou:

— Não, meu filho. Nosso velho amigo viajou para o Céu, mas enviou-nos um irmão que lhe tomará o lugar.


58 Ergueu-se, abraçou as crianças e, sentando-as nos joelhos do recém-chegado, falou, bondoso:

— Vamos, meus filhos! abracem o companheiro abençoado que chega de longe.

Os meninos, com a doçura ingênua da infância, enlaçaram o mensageiro.

O moço patrício tomou-os de encontro ao coração e acariciou-os, demoradamente; contudo, somente o velho Níger conseguiu ver o pranto que lhe corria dos olhos.

Quinto Varro havia passado.

Os anos rolariam para a frente e o ministério do novo Corvino ia começar.


.Emmanuel



(Nota 7. do Autor espiritual) — Atos dos Apóstolos, 3:6.


(Nota 8. do Autor espiritual) — O agonizante recebia a visita espiritual de alguns dos mártires cristãos de Lião, flagelados no ano de 177.  † 


(Nota 9. do Autor espiritual) — Hoje, Marselha.  † 


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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