Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Cartas de uma morta — Maria João de Deus


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Nas regiões da luz

(Sumário)

1 Desejo prosseguir, nesta noite, meu filho, sobre as dissertações a respeito dos panoramas, em cujo seio se desenvolvem as nossas atividades espirituais. Assim como as almas encarceradas na Terra têm, às vezes, quando se tornam dignas de semelhantes conhecimentos, visões perfeitas e transcendentes em relação à vida real dos Planos da espiritualidade pura, assim também alguns de nós, quando demonstramos resignação aos ditames do Alto e boa vontade na execução da tarefa que nos é designada, conseguimos a companhia de amigos, cheios de sabedoria, que nos arrebatam temporariamente da Esfera a que pertencemos, conduzindo-nos à visão grandiosa de outras manifestações mais elevadas da vida superior, no seio dos espaços infinitos. Foi assim que consegui a viagem a Saturno, já descrita.

Apenas, dentro da insipiência de nossa evolução, ignorantes da nossa condição de entidades que a existência da Terra perfeitamente caracteriza, contemplamos esses mundos grandiosos, cenários sublimes de exteriorizações aperfeiçoadas da vida, mas sem compreender os fenômenos do seu desdobramento nesses meios, para nós totalmente desconhecidos e ignorados.


Uma expedição de estudos


2 Ainda há pouco tempo, eu e mais dois companheiros, fomos escolhidos para uma expedição de estudos, atinentes à luz e, sem que eu esperasse, elevado mentor nos conduziu bondosamente a um Plano cuja beleza jamais suspeitei existir. Quando nos afastamos da Esfera que nos serve de habitação nunca nos sentimos, de forma imediata, muito à nossa vontade. É o mesmo que acontece ao homem terreno quando arrebatado inopinadamente do seu meio.

Há, sempre, nos que se mudam, no tocante às condições ambienciais, a sensação de estranheza. Felizmente, semelhantes emoções pouco nos dominam em razão de termos ampliado as nossas faculdades de ação, educando a vontade e disciplinando os sentimentos.

Como dizia, porém, atravessamos abismos de luz e hiatos dos espaços, cheios de frio e de treva, não obstante o nosso mentor e guia asseverar que o espaço nunca está vazio, havendo em todos os seus recantos manifestações de vida, que nem sempre nos é dado conhecer.

Em certa altitude, contemplamos o orbe terreno que não era mais que uma estrela de imensidade, brilhando com luz avermelhada, refletindo a claridade do sol que por sua vez se nos afigurava uma lâmpada maior que as de uso comum, até que o centro radioso do nosso sistema e seus companheiros que rodopiam na imensidade, em condições de planetas opacos, figuravam pirilampos perdidos ao longe, no silêncio aparente do Infinito. Mas, o espetáculo ao nosso lado era sedutor e deslumbrante.


Três sóis de cores diversas


3 Penetramos numa atmosfera rosada, plena de luz, mas de claridade suave, que se irradiava espalhando sons dentro da mais harmoniosa das cadências que os meus ouvidos escutaram nas condições de minha nova vida. Sobre as nossas frontes, contemplávamos, então, um sol magnífico, cor de rosa quase enrubescido, emprestando ao ambiente, em que nos movíamos, as mais estranhas cambiantes. Todavia, não ficou aí a novidade. A seguir, percebemos que uma estrela esverdeada brilhava no infinito dos céus, misturando as suas claridades esmeraldinas com as tonalidades róseas, que se estampavam em todas as coisas e, de repente, enquanto uma dessas estrelas se encontrava no zênite e a outra prestes a desaparecer nos horizontes desse planeta maravilhoso, outro sol surgia, amarelo, cor de laranja amadurecida, tonalizando como um elemento novo as paisagens. As ousadas concepções dos pintores terrenos ficariam aquém das sublimes realidades por nós observadas, referentes aos efeitos da luz, nesse sistema de encantamentos.

O elemento sólido do orbe que pisávamos, num dos mundos privilegiados que giram em torno desses três sóis de cores diversas, era formado de substâncias que me não é possível descrever. Mas, lá, observei a existência de oceanos e florestas, jardins, minerais, animais e muitas outras coisas que equivalem aos objetos e manifestações da vida sobre a Terra.


Planos aperfeiçoados de luz


4 Vi os seres pensantes desse maravilhoso orbe, todavia, são muito superiores aos homens e cuidam somente de trabalhos elevados e de ordem divina, cuja vitalidade essencial não posso transladar à linguagem terrena ainda tão imperfeita para reproduzir aquilo que constitui algo de inacessível ao entendimento dos homens atuais.

Ali estudamos, eu e os amigos que me acompanhavam, sob os esclarecimentos do nosso mentor, muitas novidades atinentes aos estudos da luz e das suas vibrações no seio do éter, base primordial de todas as construções e organizações da matéria, em todos os mundos.

Devo dizer-te, contudo, que os felizes habitantes desse mundo, alumiado pelos três sóis e onde não se conhece as palavras noite, sombra ou escuridão, puderam nos ver e entender, mas nós não conseguimos penetrar nos seus problemas, nem na elevação e na superioridade de seus labores, devido ao nosso estado moral. Apenas o nosso Mestre podia conversar com eles, mas pelo que pude observar devo acrescentar que são criaturas altamente dotadas de sensibilidade e aguçada inteligência.

Uma grande bondade se irradia dos seus pensamentos, porque nos sentimos maravilhosamente bem dispostos, enquanto estivemos em contato direto com seu ambiente.

As suas moradias são caracterizadas por uma arquitetura eminentemente interessante. Quase todas as casas possuem torres como se fossem agulhas, tão elevadas que são e ali, a luz tem aplicações que eu própria não consegui compreender, tal a transcendentalidade dos seus trabalhos, isto é, das atividades, onde são empregadas as suas vibrações.

Fiquei sabendo, porém, que a luz dos astros, em sua substância intrínseca, contém potencialidades profundas de natureza elétrica. Mesmo na Terra, futuramente os homens chegarão a compreender essas coisas quando souberem dissecar e entender o espectro solar.

Mas já é tarde. Tenho outros afazeres e voltarei breve. Deus te abençoe e conceda a cada um a sua santa paz.


.Maria João de .Deus


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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