Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Jardim da infância — João de Deus


18


Simão, o mendigo

  1 Doente, pobre, velhinho,

  O desditoso Simão,

  Arrimado a seu bordão,

  Andava devagarinho…


  2 Pés e mãos em chaga aberta,

  Lá ia o velho, coitado!

  Enfermo, desamparado

  E humilde na estrada incerta.


  3 Cabelo todo branquinho,

  Rugosa a face morena,

  O pobre metia pena

  A vagar pelo caminho…


  4 De onde viera? Ora, quem

  Buscava saber ao certo?

  Vinha de longe ou de perto?

  Ninguém sabia, ninguém.


  5 Só lhe sabiam do nome,

  E que, em miséria, sem nada,

  Ele esmolava na estrada,

  A fim de matar a fome.


  6 Estendendo seu chapéu,

  Pedia, cheio de dor:

  — Uma esmola, meu senhor,

  Por amor ao Pai do Céu!…


  7 Mas, oh! Deus, que desalento

  Neste mundo de aflição!

  Ninguém ouvia Simão

  Nas horas do sofrimento.


  8 — Passai de largo! é leproso!…

  Diziam homens cruéis —

  — Oh! não vos aproximeis

  Deste ancião perigoso!…


  9 — Ah! que graça! Põe-te à brisa!

  Exclamava outro passante

  Nada de esmola ao tratante,

  Que este velho não precisa!…


  10 O mendigo, nos seus ais,

  Dizia: — Viva a saúde!

  Trabalhei enquanto pude,

  Agora, não posso mais…


  11 Toda a gente lhe fugia,

  Ninguém lhe dava uma sopa,

  Nem um trapinho de roupa

  Para a noite da agonia.


  12 Muito tempo era passado,

  E o desditoso velhinho

  Sentia-se mais sozinho,

  Mais doente, mais cansado…


  13 Chegou, enfim, um momento

  Em que o velho sofredor

  Caiu de frio e de dor

  Na estrada do sofrimento.


  14 Caiu e sonhou, contente,

  Embora a sede e o cansaço,

  Que Jesus vinha do Espaço

  Dizendo-lhe, docemente:


  15 “— Escuta, meu bom Simão,

  Não temas, querido amigo!

  Sê forte! Eu estou contigo.

  Chegaste à ressurreição.


  16 “Não chores. Estou aqui!…

  Terminou tua aflição,

  Estás em meu coração!

  Pensavas que te esqueci?


  17 “Enquanto o mundo enganado

  Atormentava-te ao peso

  De zombaria e desprezo,

  Eu sempre estive ao teu lado.


  18 “Teus prantos e tuas dores

  São, hoje, a luz que te veste

  No campo do amor celeste,

  Repleto de eternas flores.”


  19 E Jesus, em voz mais terna,

  Concluía: — “Vem, Simão,

  À doce consolação

  Do mundo de luz eterna!…”


  20 E Simão, chorando e rindo,

  A seguir, ditoso, o Mestre,

  Esqueceu a dor terrestre,

  No céu venturoso e lindo.


  21 O caminho era de estrelas

  De tão sublime matiz

  Que o pobre ria, feliz,

  Sem saber como entendê-las.


  22 No outro dia, ao reconforto

  Do sol de coroa erguida,

  Acharam Simão sem vida…

  O mendigo estava morto.


.João de .Deus



Essa é a 44ª lição do livro “Antologia Mediúnica do Natal”, editado pela FEB em 1966.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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