Bíblia do CaminhoTestamento Xavieriano

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Chico Xavier: O Primeiro Livro — Autores diversos

Parte I — Dos amigos e contemporâneos

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Dois poetas do meu tempo

Ao meu dedicado amigo e talentoso poeta, o jovem Francisco Xavier, talento de escol, que muito ainda promete, podendo enriquecer a nossa literatura, atendendo ao seu generoso apelo deixo aqui esta modesta crônica, ainda inédita:


Dentre o grande grupo de moços intelectuais que conheci, quando a minha imaginação ardente ensaiava os seus primeiros voos, sob as arcadas do templo da arte, dois fixaram mais profundamente na minh’alma de artista, e no meu coração de amigo, o traço luminoso de sua lembrança: Mamede de Oliveira e Edgar Matta.

Nenhuma influência exerceram em meu espírito em formação, principalmente porque fui sempre um rebelde, sob o ponto de vista de arte, e se a alguém devo o ter aprendido a palmilhar com coragem o sinuoso caminho da perfeição, esse alguém é o Cônego Severiano de Campos Rocha, grande mestre e grande amigo, de quem a eterna ausência não me separa um dia só que seja.

Edgar e Mamede [Mamede de Oliveira] seduziram-me, porém, tanto um, quanto outro, pela brancura de suas almas e pela grandeza da arte de que se fizeram apóstolos fervorosos. A escola que ambos professavam nascera em França, positificada por Malarmé, W Beaudelaire, W Verlaine; W em Portugal, por Eugênio de Castro W e António Nobre; W no Brasil, por Cruz e Souza W e Alfonsus.

Tinha para a minha inteligência fútil, de quase criança, qualquer coisa de sombrio, porque eu era um fanático do parnasianismo de Bilac, esse parnasianismo que vive agora com todo o fulgor na lira de ouro de Luiz Carlos. n

Entretanto, o meu entusiasmo pelos versos dos dois poetas fazia-me esquecer tudo para pasmar maravilhado ao ler as admiráveis alexandrinas de Edgar, W poeta mais perfeito, e claro, que Mamede. O próprio cantor de “Caçador de esmeraldas” [Olavo Bilac], ouvindo-me dizer alguns dos versos do “Septenário da dor”, de Edgar, teve para eles os mais sinceros elogios e pediu-me que repetisse um dos quartetos, como a querer reter na memória os versos de impecável sonoridade.


Quando me disse: “E sete anos assim passaram lentamente; septenário da sombra e da desilusão… Mas onde o teu perfil amargurado e doente, tinha a dulia ritual dum templo de cristão…”, ouvi do grande Bilac que o verso final era um dos mais musicalmente belos que havia conhecido. É que Edgar possuía todas as qualidades de um poeta de escol. Seria um dos mais notáveis se não se deixasse vencer pelo grande amor de sua vida, o romance infeliz que o levou ao túmulo, pouco tempo antes da musa que foi o seu enlevo. Nunca lhe passou pela ideia enfeixar num só volume os versos que ficaram perdidos no esquecimento das publicações periódicas, alguns deles apenas conservados de cor, miraculosamente, por alguns de seus parentes e por seus amigos. O mesmo fim tiveram os de Mamede de Oliveira. Não porque este último se descuidasse, como Edgar, dos versos que compunha; ao contrário, tinha um grande cuidado com as suas produções e até um certo tempo, (meados de 1905), sei o destino que o moço poeta lhes dava; mas por outras razões que desconheço Mamede era de uma fecundidade admirável. Morávamos vizinhos em Belo Horizonte, e raro era o dia em que não trazia um soneto para eu ler. Os seus versos se destinavam a um livro, a que ele intitulou “Passa Graça”, e no qual, a última vez que o vi, se achava todo um precioso escrínio de lindas joias literárias, algumas delas também publicadas em revistas e jornais do tempo. Não creio que alguém se tenha interessado pela sorte dos versos de que falo, depois da morte daquela criatura de originalidade estranha, ora alegre, ora triste, que nos dava a impressão de possuir a alma angélica de um santo.

É quase certo terem ido parar em mãos profanas e a estas horas devem estar perdidas para sempre. Oxalá que eu me engane! Ambos mereciam bem um pouco mais de carinho das almas amigas, eles que foram, primeiro que tudo, bons. De minha parte, tenho esperança de poder tratar um dia, com mais amor, da personalidade e da obra desses dois saudosos amigos, quando a vida me correr menos atribulada, num livro que hei de escrever.


Pedro Leopoldo, 15-março-1929.


.Antenor Horta



[1] Luiz Carlos da Fonseca Monteiro de Barros – Engenheiro civil e poeta, nasceu no Rio de Janeiro, em 10 de abril de 1880, faleceu na mesma cidade em 16 de setembro de 1932. Eleito em 20 de maio de 1926 para a Cadeira n° 18, da Academia Brasileira de Letras. Continue esta biografia em: http://fammonteirodebarros.com.sapo.pt/luizcarlos.htm


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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