Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Parnaso de Além-Túmulo — Autores diversos


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Cruz e Souza

Catarinense. Funcionário público, encarnou em 1861 e desprendeu-se em 1898, no Estado de Minas. Poeta de emotividade delicada, soube, mercê de um simbolismo inconfundível, marcar sua individualidade literária. Sua vida foi toda dores.


ANSIEDADE

  1 Todo esse anseio que tortura o peito,

  Estrangulando a voz exausta e rouca,

  Que em cada canto estruge e em cada boca

  Faz o soluço do ideal desfeito;


  2 Ansiedade fatal de que se touca

  A alma do homem mau e do perfeito,

  Sobe da Terra pelo espaço eleito,

  Numa imensa espiral, estranha e louca,


  3 Formando a rede eterna e incompreendida

  Das ilusões, dos risos das quimeras

  Das dores e da lágrima incontida;


  4 Essa ansiedade é a mão de Deus nas eras,

  Sustentando o fulgor da luz da Vida,

  No turbilhão de todas as esferas!…


HERÓIS

  1 Esses seres que passam pelas dores,

  Às geenas do pranto acorrentados,

  Aluviões de peitos sofredores,

  No turbilhão dos grandes desgraçados;


  2 Corações a sangrar, ermos de amores,

  Revestidos de acúleos acerados,

  Nutrindo a luz dos sonhos superiores

  Nos ideais maiores esfaimados;


  3 Esses pobres que o mundo considera

  Os humanos farrapos dos vencidos,

  Prisioneiros da angústia e da quimera,


  4 São os heróis das lutas torturantes

  Que são, sendo na Terra os esquecidos,

  Coroados nas Luzes Deslumbrantes!


AOS TORTURADOS

  1 Torturados da vida, um passo adiante,

  Nos desertos dos áridos caminhos,

  Abandonados, trêmulos, sozinhos,

  Infelizes na dor a cada instante!


  2 Sobre a luz que vos guia, bruxuleante,

  E além dos trilhos de ásperos espinhos,

  Fulgem no Além os deslumbrantes ninhos,

  Mundos de amor no claro azul distante…


  3 Chorai! que a imensidade inteira chora,

  Sonhando a mesma luz e a mesma aurora

  Que idealizais chorando nas algemas!


  4 Vibrai no mesmo anseio em que palpita

  A alma universal, sonhando, aflita,

  As perfeições eternas e supremas!


A SEPULTURA

  1 Como a orquídea de arminho quando nasce,

  Sobre a lama ascorosa refulgindo,

  A brancura das pétalas abrindo,

  Como se a neve alvíssima a orvalhasse;


  2 Qual essa flor fragrante, como a face

  Dum querubim angélico sorrindo,

  Do monturo pestífero emergindo,

  Luz que sobre negrumes se avistasse;


  3 Assim também do túmulo asqueroso,

  Evola-se a essência luminosa

  Da alma que busca o céu maravilhoso;


  4 E como o lodo é o berço vil de flores,

  A sepultura fria e tenebrosa

  É o berço de almas — senda de esplendores.


ANJOS DA PAZ

  1 Ó luminosas formas alvadias

  Que desceis dos espaços constelados

  Para lenir a dor dos desgraçados

  Que sofrem nas terrenas gemonias!


  2 Vindes de ignotas luzes erradias,

  De lindos firmamentos estrelados,

  Céus distantes que vemos, dominados

  De esperanças, anseios e alegrias.


  3 Anjos da Paz, radiosas formas claras,

  Doces visões de etéricos carraras

  De que o espaço fúlgido se estrela!…


  4 Clarificai as noites mais escuras

  Que pesam sobre a terra de amarguras,

  Com a alvorada da Paz, ditosa e bela…


ALMA LIVRE n

  1 Um soluço divino de alegria

  Percorre a todo Espírito liberto

  Das pesadas cadeias do deserto,

  Desse mundo de sombra e de agonia.


  2 A alma livre contempla o novo dia,

  Longe das dores do passado incerto,

  Mergulhada no esplêndido concerto

  De outros mundos, que a luz acaricia!


  3 Alma liberta, redimida e pura,

  Vê a aurora depois da noite escura,

  Numa visão mirífica, superna…


  4 Penetra o mundo da imortalidade,

  Entre canções de luz e liberdade,

  Forçando as portas da Beleza Eterna.


“GLORIA VICTIS”

  1 Glória a todas as almas obscuras

  Que caíram exânimes na estrada,

  Onde a pobre esperança abandonada

  Morre chorando sob as desventuras.


  2 Glória à pobre criatura desprezada,

  Glória aos milhões de todas as criaturas,

  Sob a noite das grandes amarguras,

  Sem conhecer a luz de uma alvorada.


  3 Gloria Victis! Hosana aos desgraçados

  Que tombaram sem vida, aniquilados,

  Nos sofrimentos purificadores;


  4 Que o Céu é a pátria eterna dos vencidos,

  Onde aportam ditosos, redimidos,

  Como heróis dos deveres e das dores!


NOSSA MENSAGEM

  1 Essa mensagem de esperança e vida

  Que endereçamos da imortalidade,

  É a lição luminosa da Verdade

  Que a Humanidade espera comovida.


  2 Guardai a voz da Terra Prometida,

  Nos exílios do pranto e da saudade;

  Conservai essa vaga claridade

  Da luz da eternidade indefinida.


  3 Todo o nosso trabalho objetiva

  Dar-vos a fé, a crença persuasiva

  Nos caminhos da prova dolorosa.


  4 Sabei vencer entre as vicissitudes,

  Como arautos de todas as virtudes,

  Sobre as ressurreições da alma gloriosa.


ORAÇÃO AOS LIBERTOS

  1 Alma embriagada do imortal falerno,

  Segue cantando, no horizonte claro,

  O teu destino esplendoroso e raro,

  Cheio das luzes do porvir eterno.


  2 Mas não te esqueças desse mundo avaro,

  O escuro abismo, o tormentoso Averno,

  Sem as doces carícias do galerno

  Das esperanças — sacrossanto amparo.


  3 Volve os teus olhos ternos, compassivos,

  Para os pobres Espíritos cativos

  Às grilhetas do corpo miserando!


  4 Abre os sacrários da Felicidade,

  Mas lembra-te do orbe da impiedade,

  Onde venceste a carne soluçando.


CÉU

  1 Há um céu para o Espírito que luta

  No oceano dos prantos salvadores,

  Céu repleto de vida e de fulgores

  Que coroa de luz a alma impoluta.


  2 A canção da vitória ali se escuta,

  Da alma livre das penas e das dores,

  Que faz da vida a rede de esplendores,

  Na paz quase integral e absoluta.


  3 Considerai, ó pobres caminheiros,

  Que na Terra viveis como estrangeiros,

  De alma ofegante e coração aflito:


  4 Considerai, fitando a imensa altura,

  Os deslumbrantes orbes da ventura

  Por entre os sóis suspensos no Infinito!


AOS TRISTES

  1 Alma triste e infeliz que se tortura

  No tormento que punge e dilacera,

  Para quem nunca trouxe a Primavera

  Dos seus pomos dourados de ventura;


  2 Sou teu irmão e intrépido quisera

  Trazer-te a luz que esplende pela Altura,

  Afastando essa dor que te amargura

  Nas ansiedades de uma longa espera.


  3 Mas há quem guarde as gotas do teu pranto

  No tesouro sublime e sacrossanto

  Dos arcanos de luz da Divindade!


  4 Há quem te faça ver as cores do íris

  Da fagueira esperança, até partires

  Nas asas brancas da Felicidade.


BELEZA DA MORTE

  1 Há no estertor da morte uma beleza

  Transcendente, ignota luminosa,

  Beleza sossegada e silenciosa,

  Da luz branca da Paz, trêmula e acesa…


  2 É o augusto momento em que a alma, presa

  Às cadeias da carne tenebrosa,

  Abandona a prisão, dorida e ansiosa,

  Sentindo a vida de outra natureza.


  3 Um mistério divino há nesse instante,

  No qual o corpo morre e a alma vibrante

  Foge da noite das melancolias!…


  4 No silêncio de cada moribundo,

  Há a promessa de vida em outro mundo,

  Na mais sagrada das hierarquias.


MENSAGEIRO

  1 Abri minhalma para os sofredores

  Na vastidão serena dos Espaços,

  Eu que na Terra tive sempre os braços

  Presos à cruz tantálica das dores.


  2 Epopeias de Sons e de Esplendores,

  E os prazeres mais pobres, mais escassos,

  E o mistério dos célicos abraços,

  Dos Perfumes, das Preces e das Cores;


  3 Tudo isso não vejo e vejo apenas

  O turbilhão das lágrimas terrenas

  — Taça imensa de gotas amargosas!


  4 Da piedade e do amor eu trago o círio,

  Para afastar as trevas do martírio

  Do silêncio das noites tenebrosas.


SE QUERES…

  1 Se queres a ventura doce, etérea,

  De outro mundo de luz, indefinido,

  Serás na Terra o filho incompreendido

  Do Tormento casado com a Miséria.


  2 Viverás na mansão triste, funérea,

  Do Soluço, do Pranto, do Gemido;

  Dos prazeres mundanos esquecido,

  Outro Job pelas chagas da matéria.


  3 Serás em toda a Terra o feio aborto

  Das amarguras e do desconforto,

  Encarcerado nas sinistras grades;


  4 Mas um dia abrirás as portas de ouro

  E encontrarás o fúlgido tesouro,

  De benditas e eternas claridades.


À DOR

  1 Dor, és tu que resgatas, que redimes

  Os grandes réus, os míseros culpados,

  Os calcetas dos erros, dos pecados,

  Que surgem do pretérito de crimes.


  2 Sob os teus pulsos, fortes e sublimes

  Sofri na Terra junto aos condenados,

  Seres escarnecidos, torturados,

  Entre as prisões da Lágrima que exprimes!


  3 Da perfeição és o sagrado Verbo,

  Ó portadora do tormento acerbo,

  Aferidora da Justiça Extrema…


  4 Bendita a hora em que me pus à espera

  De ser, em vez do réprobo que eu era,

  O missionário dessa Dor suprema!


NOUTRAS ERAS

  1 Também marchei pelas estradas flóreas,

  Cheias de risos e de pedrarias;

  Onde todas as horas dos meus dias

  Eram hinos de esplêndidas vitórias.


  2 Tive um passado fúlgido de glórias,

  De maravilhas de ouro e de alegrias,

  Sem reparar, porém, noutras sombrias

  Sendas tristes, das dores meritórias.


  3 E abusei dos deveres soberanos

  Sucumbindo aos terríveis desenganos

  Do destino cruel, fatal e avaro;


  4 Para encontrar-me a sós no mesmo horto

  Que deixara, sem luz e sem conforto,

  Sentindo as dores desse desamparo.


SOFRE

  1 Toda a dor que na vida padeceres,

  Todo o fel que tragares, todo o pranto,

  Ser-te-ão como trevas, e, entretanto,

  Serás pobre de luz se não sofreres.


  2 É que dos sofrimentos nasce o canto

  De alegria dos mundos e dos seres,

  Pois que a dor é a saúde dos prazeres,

  O hino da luz, misterioso e santo.


  3 Doma o teu coração, e, no silêncio,

  Foge à revolta, humilha-o, dobra-o, vence-o,

  Chorando a mesma dor que o mundo chora;


  4 Abre a tua consciência para as luzes

  E, no mundo que o mal encheu de cruzes,

  Do Bem encontrarás a eterna aurora.


EXALTAÇÃO

  1 Harmonias do Som, vibrai nos ares,

  Nos horizontes, nas atmosferas;

  Exaltai minhas dores de outras eras,

  Meus passados, recônditos pesares.


  2 Desdobrai-vos luzeiros estelares,

  Sobre o aroma das novas primaveras;

  Cantem no mundo todas as quimeras,

  Aves e flores, amplidões e mares!


  3 Vibrai comigo, multidões de seres,

  Na concretização desses prazeres

  Do meu sonho de luzes e universos…


  4 Exaltai-vos na vida de minhalma,

  E na grandeza infinda que se espalma

  Sobre a glória sublime dos meus versos!


VOZES

  1 Há sobre os prantos, há sobre as humanas

  Vozes que se lamentam nas torturas,

  Outras vozes mais doces e mais puras,

  Como um coro dulcíssimo de hosanas.


  2 As primeiras são feitas de amarguras,

  As segundas, de bênçãos soberanas,

  Sobre as dores sagradas ou profanas

  Que pululam nas sendas mais escuras.


  3 Sobe da Terra a queixa soluçando,

  Silenciosa, muda, suplicando,

  Remontando aos Espaços constelados;


  4 Desce dos Céus a voz amiga e mansa,

  Fortificando a vida da Esperança

  — Patrimônio dos seres desgraçados.


SONETO

  1 Nos labirintos dessa eternidade

  Que nós vivemos luminosa e pura,

  A alma vive na intérmina procura

  Do filão de ouro da felicidade.


  2 Quanto mais sofre, tanto mais se apura

  No pensamento excelso da Verdade,

  Vendo na auréola da Imortalidade

  A alvorada risonha da ventura.


  3 E ao fim de cada noite tormentosa,

  Que é a existência na prova dolorosa,

  Canta e vibra num dia de bonança.


  4 Em torno da Verdade a alma gravita

  Buscando a Perfeição pura, infinita,

  Nessa jornada eterna da Esperança.


GLÓRIA DA DOR

  1 Para aquém dessas cruzes esquecidas

  Nas sepulturas ermas e desertas,

  Há o turbilhão frenético das vidas

  Sobre as estradas ásperas, incertas…


  2 Inda há sânie das úlceras abertas

  No coração das almas combalidas,

  Gozadores de outrora entre as refertas

  Das ilusões que tombam fenecidas.


  3 Só uma glória mirífica perdura

  Concretizando os sonhos da criatura

  Cheia de crenças e de cicatrizes:


  4 É a vitória da Dor que aperfeiçoa,

  Luminosa e divina, humilde e boa,

  Glória da Dor, que é pão dos infelizes.


QUANTA VEZ

  1 Quanta vez eu fitei essas fronteiras,

  Horizontes, estrelas, firmamentos,

  Presa de sonhos e estremecimentos

  De esperança, nas horas derradeiras!…


  2 Ah! meus longínquos arrebatamentos,

  Amarguras e dores e canseiras,

  Que vos fostes nas lágrimas ligeiras,

  Como folhas levadas pelos ventos…


  3 Quanta vez, abafando os meus soluços,

  Como o errado viajor que cai de bruços

  Sobre a íngreme estrada da agonia,


  4 Ensináveis-me a ler a bíblia santa

  Desta vida imortal que se levanta

  Numa alvorada eterna de alegria!


IDE E PREGAI

  1 Vós que tendes as rosas da bonança

  Enlaçadas na fé mais doce e pura,

  Ide e pregai, na noite da amargura,

  O evangelho do amor e da esperança.


  2 Toda luz da verdade que se alcança

  É um reduto de paz firme e segura:

  Dai dessa paz a toda criatura,

  Sobre a qual vossa vida já descansa.


  3 Espalhai os clarões da vossa crença

  Na pedregosa estrada dessa imensa

  Turba de irmãos famintos, torturados!


  4 Conduzi a mensagem luminosa

  Da caridade, lúcida e piedosa,

  Redentora de todos os pecados.


CARIDADE

  1 Caridade é a mão terna e compassiva

  Que ampara os bons e aos maus ama e perdoa,

  Misericórdia, a qual para ser boa,

  De bens paradisíacos se priva.


  2 Mão radiosa, que traz a verde oliva

  Da paz, que acaricia e que abençoa,

  Voz da eterna verdade que ressoa

  Por toda a parte, promissora e ativa.


  3 A caridade é o símbolo da chave

  Que abre as portas do céu claro e suave,

  Das consciências libertas da impureza;


  4 É a vibração do espírito divino,

  Em seu labor fecundo e peregrino,

  Manifestando as glórias da Beleza!…


RENÚNCIA

  1 Renuncia a ti mesmo! Renuncia

  À mundana e efêmera vaidade:

  Que em ti sintas a dúlcida piedade

  Que as desgraças alheias alivia.


  2 Do homem, esquece a lúrida maldade,

  Prosseguindo na estrada luzidia.

  E denodadamente engendra e cria

  Teu próprio mundo de felicidade!


  3 Parte o teu coração em mil fragmentos,

  Ofertando-os ao mundo que te odeia

  Com a bondade mais pródiga e mais pura.


  4 Não olvides em meio dos tormentos:

  — Renunciar em bem da dor alheia,

  É ter no Além castelos de ventura.


TUDO VAIDADE

  1 Na Terra a morte é o trágico resumo

  De vanglórias, de orgulhos e de raças;

  Tudo no mundo passa, como passas,

  Entre as aluviões de cinza e fumo.


  2 Todo o sonho carnal vaga sem rumo,

  Só o diamante do espírito sem jaças

  Fica indene de todas as desgraças,

  De que a morte voraz faz seu consumo.


  3 Nesse mundo de lutas fratricidas,

  A vida se alimenta de outras vidas,

  Num contínuo combate pavoroso;


  4 Só a Morte abre a porta das mudanças

  E concretiza as puras esperanças

  Nos países seráficos do gozo!


OUVI-ME

  1 Ó vós que ides marchando, almas sedentas

  De paz, de amor, de luz, sob as maiores

  Desventuras do mundo, sob as dores

  De misérias, batalhas e tormentas…


  2 Também senti as emoções violentas

  Que palpitam nos peitos sonhadores,

  E sustentei, varado de amargores,

  Surdas batalhas, rudes e incruentas.


  3 Também vivi as lágrimas obscuras,

  Iguais às vossas, míseras criaturas,

  Que tombais nos caminhos sem dizê-las!


  4 Exultai, que uma vida eterna e grande,

  Além da morte, esplêndida se expande

  No coração sublime das estrelas!…


FELIZES OS QUE TÊM DEUS

  1 Entre esse mundo de apodrecimento

  E a vida de alma livre, de alma pura,

  Ainda se encontra a imensidade escura

  Das fronteiras de cinza e esquecimento.


  2 Só o pensador que sofre e anda à procura

  Da verdade e da luz no sentimento,

  Pode guardar esse deslumbramento

  Da Fé — fonte de mística ventura.


  3 Feliz o que tem Deus nessa batalha

  Da miséria terrena, que estraçalha

  Todo o anseio de amor ou de bonança!…


  4 Venturoso o que vai por entre as dores

  Atravessando o oceano de amargores,

  No bergantim sagrado da Esperança.


GLÓRIA AOS HUMILDES

  1 Ai da ambição do mundo, ai da vaidade

  Que se mergulham sob a noite escura,

  Noite de dor que além da sepultura

  Nos afasta da vida e da verdade.


  2 Só o caminho divino da humildade

  Pode ofertar a luz radiosa e pura,

  Que vem salvar a mísera criatura

  Confundida no abismo da impiedade.


  3 Pobres da Terra, seres infelizes

  Cheios de prantos e de cicatrizes,

  Levantai vosso olhar sereno e forte.


  4 Não maldigais a ulceração da algema,

  E esperai a vitória alta e suprema,

  Que Jesus vos prepara além da morte.


AOS TRABALHADORES DO EVANGELHO


  1 Há uma falange de trabalhadores,

  Espalhada nas sendas do Infinito,

  Desde as sombras do mundo amargo e aflito

  Aos espaços de eternos resplendores.


  2 É a caravana de batalhadores

  Que, no esforço do amor puro e bendito,

  Rompe algemas de trevas e granito,

  Aliviando os seres sofredores.


  3 Vós que sois, sobre a Terra, os companheiros

  Dessa falange lúcida de obreiros,

  Guardai-lhe a sacrossanta claridade;


  4 Não vos importe o espinho ingrato e acerbo,

  Na palavra e nos atos, sede o Verbo

  De afirmações da Luz e da Verdade.


.Cruz e Souza



[1] Nota da Editora — Este e outros sonetos de Cruz e Souza foram por ele mesmo traduzidos magistralmente em Esperanto, e as traduções ditadas ao médium Francisco Valdomiro Lorenz, que no-las remeteu. Por supormos fato inédito, deixamo-lo aqui registado. Essas traduções mediúnicas de versos em Esperanto foram publicadas em elegante volume, sob o título: Vocoj de poetoj el la Spirita Mondo. — (A Editora.)


As mensagens: Beleza da morte; Aos tristes; À dor; Se queres; Mensageiro e Tudo vaidade foram publicadas também em 2010 pela editora VL na 3ª Parte do livro “Chico Xavier: O Primeiro Livro” e encontram-se devidamente relacionadas no Anexo A.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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