Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Sexo e destino — André Luiz — F. C. Xavier / Waldo Vieira — 1ª Parte


Capítulo 13

(Sumário)

1 Tornei ao Flamengo, apreensivo.

Não conseguira auscultar as minudências do plano obscuro que se formava. Os pensamentos de Cláudio e do vampirizador entrelaçavam-se em estranhos propósitos imprecisos.

Expedi comunicação, em despacho rápido para o irmão Félix, salientando a necessidade de nosso encontro, recolhendo-lhe a resposta, que não me alentava. n Viria à noitinha, não mais cedo, à vista de inadiáveis obrigações.

Seria desaconselhável qualquer recurso a Neves, que sabia ocupado e, talvez, providencialmente ocupado, já que as dificuldades morais se esboçavam em labirinto e alguma ameaça de irritação nos frustraria objetivos e movimentos. Amigos outros, de cujos préstimos seria lícito dispor, jaziam longe do assunto.

Era forçoso agir só, trabalhar por mim mesmo.

O momento não comportava aflições inúteis. Necessário manejar os recursos em mão.

Para intervir sem vacilações, julguei prudente ouvir o acompanhante desencarnado, de Cláudio, que eu desconhecia de todo. A princípio, encontráramos dois. Entretanto, apenas um deles se mantinha constante, aquele cuja inteligência aguçada me ferira a atenção.

Não seria justo investigá-lo, perquirir-lhe os anseios?

Rememorei experiências anteriores, em que juntamente de outros amigos desencarnados modificara a apresentação externa, através de profundo esforço mental.

Aspirava a fazer-me visível à frente daquele amigo enigmático que claramente habitava o lar dos Nogueiras.

Poderia transfigurar-me, adensando a forma, como alguém que enverga roupa diversa. Recolhi-me em ângulo tranquilo, à frente do mar. Orei, buscando forças.

Meditei, fundo, compondo cada particularidade de minha configuração exterior, espessando traços e mudando o tom de minha apresentação habitual. n

Quase uma hora de elaboração difícil esgotou-se, até que me percebi em condições de empreender a conversação cobiçada.

Não me autorizava a perder um minuto. Avancei; prédio acima, batendo à porta, cerimonioso. n

Aconteceu como previa, porque o parceiro invariável de Cláudio veio atender.

Olhou-me, desconfiado, de alto a baixo, esquadrinhou-me os intuitos.

Humilhei-me, vulgarizei a linguagem quanto pude.

Semelhante atitude era indispensável pela minha necessidade de informações. Atento a isso, afetei absoluto desinteresse pelos moradores do apartamento, centralizando nele o núcleo natural de minha atenção.

Expliquei andar procurando um amigo e perguntei pelo outro camarada que vira, ali, dias antes. Vira-os, juntos, precisamente naquele local, quando transitava no corredor; entretanto, passava, apressado, a peso de obrigações. Guardara, porém, a impressão de que o companheiro cujo encontro ambicionava era ele.

Esse o expediente mais simples que me ocorreu para cativá-lo, conversando com espírito de submissão e fraternidade naturais, de modo a ganhar-lhe alguma confiança e carinho.

Ele pareceu sensibilizar-se, tratou-me com a generosidade acidental de um fidalgo que não se desmerecia por dar migalha de consideração a um mendigo.

Compleição robusta e enorme, tocou-me o ombro com a destra, ensaiando o gesto de quem se prepara a despachar, polidamente, uma pessoa importuna, e catou minudências. Analisou-me, perscrutou-me, repisando inquirições.

Inteirando-se do exato momento em que os vira reunidos e reconhecendo os detalhes que conseguira, de minha parte, mencionar, esclareceu tratar-se de um amigo, que costumava hospedar, de vez em vez, para o reconforto de uns “drinques”. Naquele momento, contudo, não estava. Ao que sabia, recreava-se numa casa, em Braz de Pina, cujo endereço indicou.

Lamentei. Solicitei-lhe o nome, estava reconhecido à gentileza do acolhimento e tornaria ao Flamengo em outra oportunidade. Estimaria nomeá-lo com a possível intimidade quando voltasse, na hipótese de ser constrangido a perguntar por ele a desconhecidos.

Ele não se fez de rogado. Respondeu, cortês. Chamava-se Ricardo Moreira. Em alguma necessidade, porém, bastaria que o designasse tão só por Moreira. Era estimado, possuía numerosas relações, contava com muitas afeições no prédio. Se chegasse a vê-lo, de novo, em companhia do colega ao qual me reportava, que o sacudisse, despertando-lhe a atenção.

Até ali, tudo bem. Era necessário, entretanto, que eu lhe examinasse as mais íntimas reações. Imprescindível conhecê-lo, sopesá-lo.

Acusei-me cansado, deprimido. Se ele era ali o mordomo, que me permitisse entrar, por gentileza, ainda que por instantes breves, a fim de que me fosse possível refazer as forças. Ato de bondade fraterna. Nada além de alguns minutos. Carecia de ambiente humano, amigo.

Operou-se, entretanto, a reviravolta.

Vi perdida a posição que granjeara.

Moreira arremessou-me olhar terrível, que funcionou sobre mim qual punhalada vibratória. Ajuntou frases irônicas e gritou que a casa tinha dono; que, diante dos “descascados”, n quem mandava ali era ele; que, para atravessar a porta, seria preciso removê-lo; que eu dispunha da rua larga para dormir; e finalizou, agressivo:

— Que tem você aqui? Dê o fora, que não vou com sua lata! Vá se catar, vá se catar!… Nenhuma outra alternativa senão descer escadas, desabaladamente, porque avançou em minha direção, arregaçando punhos decididos.

Regressei ao aconchego do mar, entrando em prece.


2 Reavendo a condição que me é peculiar, voltei ao mesmo ponto.

No interior da peça, o casal acomodara-se para o almoço, com as atenções de Dona Justa, em serviço.

Moreira, que não mais me assinalava a presença, instalara-se na cadeira de Cláudio e com Cláudio, de tal modo, que, certo, se alimentava tão claramente quanto ele, através de um dos numerosos processos em que se catalogam as ações da osmose fluídica.


3 A conversa entre os cônjuges deslizava, banal, mas, consultando o cérebro de Nogueira, convencemo-nos para logo de que o tema do dia circulava, ativamente, no sistema de conjugação mental que prevalecia entre ele e o acompanhante. Registrava-se-lhes o anseio por notícias que lhes facultassem conexões para o objetivo inconfessável, que começavam a entremostrar em espírito.

Agora, à mesa, a dupla exteriorizava os intentos escusos, nas formas-pensamentos em que as duas mentes enfermiças se revelavam. Tudo se aclarava, de súbito. Digeriam o plano em silêncio. Abordariam Marita, à feição de dois caçadores, colhendo uma lebre. Antegozavam o assalto, articulavam-se-lhes os pensamentos em lances dissolutos. Determinavam-se a surpreendê-la, em casa de Crescina, como se apanha um fruto resguardado ria árvore.

Perplexo, decifrei a trama inteira.

Cláudio ergueu a voz e, fingindo ignorar a viagem da filha, perguntou à mulher por Marina, de vez que, no fundo, queria notícias da outra.

Dona Márcia caiu, de imediato, na indução. Respondeu que ele, provavelmente, se havia esquecido de que a moça avisara, na véspera, que iria a Teresópolis, a serviço da imobiliária. O chefe, impedido, indicara-a para representá-lo em algumas transações importantes. Voltaria, sem dúvida, na manhã seguinte. Quanto a Marita, horas antes telefonara de Copacabana, solicitando para que não a esperassem ao jantar. Talvez demorasse em serviço extra, na contabilidade da loja, até mais tarde.

O marido pigarreou, mudou de assunto, comentou alguns sucessos políticos e a refeição terminou sem maiores delongas.

No intuito de colaborar com eficiência, na preservação da harmonia geral, demandei a habitação de Crescina, onde não tive qualquer dificuldade para identificar o aparta,mento número quatro. Recanto isolado para casal, completamente desligado da comprida construção de um pavimento só.

A vivenda, pela extensão enorme aparentava profunda calma; entretanto, pela ruidosa conversação dos desencarnados menos felizes, que aí bulhavam, desocupados, era possível imaginar as agitações da noite.

Depois de atenciosas idas e vindas pelo terreno, examinando situações, vi a dona da casa tomar o fone. Aproximei-me. Crescina perguntava por Gilberto, no escritório dos Torres. Atendida, combinou visitá-lo às duas, daí precisamente a meia hora.

O programa foi cumprido em todas as sequências previstas.

De retorno, Crescina chamou para a loja e comunicou à jovem que o rapaz escrevera. Tudo certo. Leu o bilhete, em que lhe participava a resolução de estar firme, no lugar indicado, às oito. Que ela aguardasse, confiasse.

A pobre menina exultou e as minhas inquietações doíam agigantadas.


4 Necessitava desdobrar medidas de proteção; entender-me com algum amigo encarnado, em ligação com o grupo; sugerir providências que evitassem a consumação do projeto; criar circunstâncias em que o socorro chegasse em nome do acaso, entretanto… Debalde, girei da pensão alegre ao escritório, do escritório à loja, da loja ao banco, do banco ao apartamento no Flamengo… Ninguém estendendo antenas espirituais, com possibilidades de auxílio, ninguém orando, ninguém refletindo… Em todos os lugares, pensamentos entouçados sobre raízes de sexo e finança, configurando cenas de prazeres e lucros, com receptividade frustrada para qualguer interesse de outro tipo. Até mesmo um dos chefes de Marita, do qual me acerquei, tentando insuflar-lhe a ideia de reter a jovem, no serviço, até altas horas da noite, ao sentir-lhe a imagem, na tela mental, transmitida por mim, para início de entendimento, acreditou estar pensando consigo mesmo, inclinando o assunto para questões salariais; concentrou-se, de pronto, nas vantagens econômicas, agarrou-se a cifras, encheu a cabeça com parágrafos da legislação trabalhista e expulsou-me a influência, sumariamente, monologando no íntimo: “essa moça já percebe o suficiente, não lhe darei nem mais um centavo.” Nenhum outro recurso senão permanecer no casarão, de sentinela.

Inúteis as diligências.


5 Às sete e trinta da noite, Cláudio apresentou-se com esmero, sem mesmo esquecer-se de uma peruca leve que lhe remoçava as linhas fisionômicas.

Solerte, espiou a vivenda de Crescina, a pequena distância. Ele e o outro. Moreira não parecia menos interessado.

Acompanhei-os.

O marido de Dona Márcia, aperaltado, buscava um telefone, que não teve dificuldade para encontrar. Café vizinho facilitava. Discou, chamando Fafá, o porteiro da pensão, que ficáramos conhecendo em nossas investigações cordiais, durante o dia. Atendido, rogou-lhe que fosse encontrá-lo, confidencialmente. Questão de negócio. Não se arrependeria do segredo. Riram-se pelo fio.

O empregado, velho bonachão que o álcool já começava a excitar naquelas horas verdes da noite, veio à pressa. Atencioso e sabido, conquanto guardasse um sorriso de bondade, parado no rosto, que tanto podia ser para o bem como para o mal, inclinou o ouvido para a boca de Cláudio, a fim de escutar melhor. Nogueira cochichou, solene. Solicitava-lhe concurso urgente. Precisava esclarecer-se quanto aos jovens que se reuniriam no “quatro”. A moça era sua filha. Não faria barulho, não escandalizaria a ninguém, mas desejava certificar-se. Nada de complicações. Necessário reconhecer o desencaminhador, de maneira a solucionar o problema de família, sem alarde. Recorria aos préstimos dele, companheiro dedicado. Não lhe dispensaria a colaboração.

Fafá disse compreendê-lo e participou que a menina esperada já se instalara. Vira-a sozinha, através da porta semicerrada. Estava sentada no leito, folheando revistas. E, ante as perguntas que se acumulavam, confirmou que era a jovem, vista por ele, cedinho, em conversação com a mundana. Sim, guardara-lhe o nome. Era Marita, sim.

Fez-se Cláudio mais reservado e pediu-lhe “blecaute”. Que o porteiro lhe fizesse o favor de desajustar o fusível, na instalação elétrica. O conserto exigiria uns quinze minutos de sombra. Isso bastava para que se inteirasse de tudo, sem que a patroa e os hóspedes lhe percebessem a presença. Colocar-se-ia no escuro, em ângulo oposto à iluminação pública, e, assim, facilmente identificaria o rapaz.

O serventuário, não obstante semi-embriagado, fixou expressão matreira e salientou que era problema sério, aquele. Satisfaria ao chefe, mas bico calado. Nada de envolver-se com os tiras.

Cláudio deixou escorregar para a mão dele duas cédulas de quinhentos cruzeiros, e Fafá, menos inquieto, indagou pelo horário exato, ao que Nogueira aclarou, afirmando faltar unicamente dez minutos, de vez que aguardaria a luz apagada, as oito em ponto.


6 Separaram-se os dois e, quando me perdia em dolorosas conjeturas, revigoradora surpresa me visitou o espírito. Dera apenas alguns passos na rua e fui agradavelmente defrontado pelo irmão Félix, que me abraçava.

Comovi-me. Revê-lo e confiar-lhe todas as inquietações foi trabalho de segundos.

Nas minhas frases curtas, o instrutor recolheu todo o material informativo.

Sem detença, rumamos para a vivenda coletiva, cujas lâmpadas esmoreceram, de chofre, quando lhe transpúnhamos a entrada. Tive a ideia de que o acontecimento era comum, porquanto a escuridão não estabeleceu o menor alarme. Velas bruxuleantes piscavam, aqui e ali.

Tomamos a direção do aposento isolado.

Cláudio estacara à porta, enlaçado pelo vampirizador. Ambos justapostos um ao outro. Dupla de sentimentos e propósitos iguais. Ambos emocionados, corações pulsando precípites, prelibavam a caça que não lhes escaparia. A distância reduzida, notei que os dois se postavam sob o halo das energias balsâmicas de Félix; entretanto, o admirável fenômeno para eles era como se não existisse.

Diante do quadro inquietante e enternecedor, imaginei comigo fitar dois lobos humanizados, aos quais piedoso emissário dos Céus tentasse, inutilmente, entregar a palavra e a inspiração de Jesus-Cristo.

Enrodilhavam-se os dois num charco mental de lascívia, com tamanha sofreguidão, que não cabia ali, naquele vulcão de apetites sexuais, a menor frincha pela qual se pudesse arremessar alguma ideia de elevação.

Agressivo perfume de cravos me invadiu o olfato desprevenido. Onde sentira, naquele dia, um cheiro igual? Recordei, espantado. Aquele era o extrato usado por Gilberto. Conhecera-o, na palestra do Lido. Minudenciei observações e reconheci que Nogueira tivera igualmente o cuidado de usar indumentária, em tudo semelhante à do moço, inclusive a gravata, quanto ao nó e ao tamanho. Nenhuma particularidade fora esquecida.

Antes que Félix e eu pudéssemos estudar medidas de contenção, a dupla avançou quarto a dentro.

Nós, que podíamos enxergar na obscuridade, vimos a pobre menina levantar-se, sussurrando frases de arrebatadora paixão e de intensa saudade, abrindo, ansiosa, os braços, sem guardar para si o mínimo resquício de vigilância… Acreditava-se diante do amado… Era ele, não devia recear… Naquele instante, em todas as suas intenções e em todos os seus nervos, um pensamento só, um apelo só: entregar-se…

Cláudio e o outro, a fremirem de emoção, mantinham absoluto silêncio.

Nada que pudesse evitar a integração indesejável.

Nogueira, agindo por si e pelo acompanhante, atraiu-a, de encontro ao peito, e beijou-a, convulso. A indefesa criança, hipnotizada pelos próprios reflexos, abandonou-se, vencida…

Irmão Félix, tangido por sentimentos que eu não poderia avaliar, deixou o recinto e acompanhei-o.

Atingindo o degrau externo da porta de entrada, vi que o benfeitor, transido, se deteve, de olhos fitos no céu… Quanto a mim, conturbado, não me sentia capaz de articular uma prece. Nada pude fazer senão calar-me, reverente, perante o agoniado coração paterno, que vinha das Esferas superiores para desmanchar-se ali, em suplício indizível, velando, através da oração muda que lhe extravasava agora em grossas lágrimas!…


7 Homens, irmãos, ainda que não possais viver santamente, à face doa instintos inferiores que nos atenazam as almas, animalizadas ainda por duros gravames do passado culposo, reduzi, quanto puderdes, as quedas de consciências! quando não seja por vós, fazei-o pelos mortos que vos amam de uma vida mais bela!.. Disciplinai-vos, em respeito a eles, guardiãs invisíveis que vos estendem as mãos!… Pais e mães, esposos e esposas, filhos e irmãos, amigos e companheiros, que supondes perdidos para sempre, em muitas ocasiões vos acompanham de perto, acrescentando-vos a alegria ou partilhando-vos a dor!… Quando estiverdes a ponto de resvalar, nos despenhadeiros da delinquência, pensai neles! Ser-vos-ão generosos, indicando-vos o caminho, na noite das tentações, à feição das estrelas que removem as trevas! Vós que sabeis reverenciar as mães e os mestres encanecidos na abnegação, que ainda respiram no mundo, compadecei-vos também dos mortos, transfigurados em afetuosos cireneus, a nos compartirem as cruzes das provações merecidas, em dorido silêncio, quando, muitas vezes, não somos dignos de oscular-lhes os pés!…

Diante de Félix, em pranto amargo, meu coração, imperfeito e pobre, passou então a recorrer ao Evangelho e confortei-me ao lembrar que Jesus, o Divino Mestre, fora também o amigo sensível e carinhoso, ao chorar, um dia, na Terra, ante Lázaro, morto!… ( † )


8 Decorridos quase vinte minutos de expectação, a luz reapareceu e ouviu-se um grito agoniado, em que o espanto e a dor se mesclavam com terrível acento.

Marita, com a rapidez de uma corça dilacerada, saltou a janela, em sentido oposto, e disparou em desalinho…

Antes, porém, que nos fosse possível esboçar qualquer socorro, alguém chegou, apressadamente, e abordou a porta do solitário aposento, espancando-a com fúria. Esse alguém era Dona Márcia.

Nogueira, assistido pelo amigo desencarnado, recompôs-se num átimo e, ao esbarrar com a esposa, fez um risinho ridicularizador, exclamando, mordaz:

— Era só o que faltava!… Você também?! Aqui?…

Dona Márcia, que costumava entreter-se no pôquer, junto de amigas, não longe da pensão de Crescina, com quem mantinha relações de amizade, fora imediatamente informada por ela quanto à chegada do marido, com a observação de que ele talvez entrasse em rixa acirrada com os jovens.

O porteiro, receando complicações, aviara-se, diligente, comunicando à patroa quanto sabia, e a patroa, a seu turno, julgando que a moça e Gilberto estivessem reunidos, não hesitara invocar a presença da amiga, no intuito de conjurar possíveis desastres.

A senhora Nogueira, ao chegar, inquieta, vira a filha adotiva que debandava e, em topando o marido, desapontado, saindo a sós, entendeu, num relance, tudo o que se passara…

— Canalha! — bradou, indignada — eu não acreditei nessa menina infeliz! Eu que poderia ter evitado!…

E a voz da recém-chegada assumiu dolorosa inflexão:

— Como é que você não pensou? Tenho comigo todos os papéis de Aracélia, todos os seus bilhetes… Ela nunca esteve com outro homem, a não ser você mesmo!.. Você nunca soube da última carta, em que ela me entregava a menina, dizendo que preferia morrer para que eu fosse feliz!… A memória dessa moça pobre e leal é a única coisa boa que eu tenho no coração… O resto você destruiu… Ah! Cláudio, Cláudio!… a que baixezas descemos nós?!… Louco! Você ultrajou sua própria filha!…

Ele apoiou-se, cambaleante, na porta, como que fulminado por um raio, Dona Márcia prorrompera em soluços; entretanto, de nossa parte, era forçoso sair.


.André Luiz



[1] Diante dos microaparelhos existentes no Plano Físico para emissão e recepção de mensagens a longas distâncias, é desnecessário comentar as facilidades de intercâmbio no Plano Espiritual. — (Nota do Autor espiritual.)

[2] [O uso da túnica à moda romana é normal na Espiritualidade, certamente destoaria com os objetivos de André Luiz, onde deveria comparecer vestido como um homem normal]

[3] [No trecho, “Avancei, prédio acima, batendo à porta, cerimonioso” devemos reconhecer que a porta fluídica que André encontrou é uma criação feita com recursos ectoplásmicos, transitoriamente estáveis, do protetor daquele lar (No caso em foco, Moreira não deixa de ser um protetor do lar de Cláudio). Obedecendo o desenho desejado pelo seu idealizador, que pode ou não assumir a forma da sua receptora material, essa porta tem sua densidade variável segundo os tipos de fluidos mais ou menos densos empregados em sua formação. Ela é uma criação ideoplástica.]

[4] Um dos pejorativos pelos quais a gíria dos Planos inferiores designa os Espíritos desencarnados. — (Nota do Autor espiritual.)

(Página recebida pelo médium Waldo Vieira.)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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