Estudos Espíritas | EADE - Estêvão, o primeiro mártir do Cristianismo

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EADE — Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita — Religião à luz do Espiritismo

TOMO I — CRISTIANISMO E ESPIRITISMO
Módulo II — O Cristianismo

Roteiro 11


Estêvão, o primeiro mártir do Cristianismo


Objetivos: Elaborar breve biografia de Estêvão. — Destacar a importância do seu trabalho na edificação da igreja cristã.



IDEIAS PRINCIPAIS

  • Estêvão foi o nome adotado por Jeziel quando se converteu ao Cristianismo. Judeu helenista de Corinto, era filho de Jochedeb e irmão de Abigail, futura noiva de Saulo de Tarso. Emmanuel: Paulo e Estêvão. Primeira parte. Capítulo 2.

  • No ano de 34, os judeus que viviam em Corinto — cidade incorporada ao Império Romano — sofreram atormentada perseguição conduzida pelo Precônsul Licínio Minúcio, preposto de César, na província de Acaia, que culminou com o assassinato de Jochebed, prisão e encaminhamento de Jeziel a trabalho forçado nas galeras (galés) romanas. Abigail fugiu para Jerusalém, mantida sob a proteção do casal Zacarias e Ruth, que a adotou como filha. Emmanuel: Paulo e Estêvão. Primeira parte. Capítulo 2.

  • Libertado do serviço forçado pelo generoso romano Sérgio Paulo, Jeziel chega extremamente enfermo a Jerusalém onde é acolhido por Simão Pedro na “Casa do Caminho”, instituição de auxílio aos necessitados, fundada pelo apóstolo. Emmanuel: Paulo e Estêvão. Primeira parte. Capítulo 3.

  • Estêvão foi um dos mais destacados cristãos nos primeiros tempos da edificação da igreja cristã. Um “Espírito cheio de graça e de poder que operava prodígios e grandes sinais entre o povo”. Atos dos apóstolos, 6.8.



 

SUBSÍDIOS


1. Dados biográficos de Estêvão


Estêvão era um judeu helenista, nascido na cidade de Corinto, província de Acaia, dominada pelos romanos.


Acidade, reedificada por Júlio César, era a mais bela joia da velha Acaia, servindo de capital à formosa província. Não se podia encontrar, na sua intimidade, o espírito helênico em sua pureza antiga, mesmo porque, depois de um século de lamentável abandono […], restaurando-a, o grande imperador transformara Corinto em colônia importante de romanos, para onde ocorrera grande número de libertos ansiosos de trabalho remunerador, ou proprietários de promissoras fortunas. A estes, associara-se vasta corrente de israelitas e considerável percentagem de filhos de outras raças que ali se aglomeravam, transformando a cidade em núcleo de convergência de todos os aventureiros do Oriente e do Ocidente. (2)


Descendente da tribo de Issacar, (10) Estêvão se revelou, desde jovem, destacado estudioso das escrituras, apreciando, em especial, os ensinamentos de Isaías que anunciavam a promessa da vinda do Messias. (10) A sua vida foi marcada por grandes sacrifícios e renúncias, sobretudo quando se converteu ao Cristianismo. A partir deste momento, Jeziel rompe definitivamente com as tradições do Judaísmo, adotando o pseudônimo de Estêvão, o primeiro mártir do movimento cristão.

Possuidor de personalidade envolvente, Estêvão “cheio de graça e de força, operava grandes prodígios e sinais entre o povo.” (Atos dos apóstolos, 6.8)

No ano de 34 d. C., os habitantes de Corinto sofreram dolorosa perseguição do Procônsul romano, Licínio Minúcio, que, “[…] cercado de grande número de agentes políticos e militares e estabelecendo o terror entre todas as classes, com seus processos infamantes. […] Numerosas famílias de origem judaica foram escolhidas como vítimas preferenciais da nefanda extorsão.” (3)

A família de Estêvão se resumia ao pai Jochedeb e a irmã Abigail — que futuramente seria noiva de Paulo de Tarso — , uma vez que a sua mãe era falecida. Essa família foi diretamente atingida pela perseguição do preposto de César, sendo que o idoso Jochedeb foi covardemente assassinado, Estêvão foi feito prisioneiro e atirado ao trabalho forçado nas galeras (galés) romanas. (4) (5) (7) Abigail fugiu para Jerusalém sob a proteção de uma família judia, Zacarias e Ruth, também vítima de perseguição, que teve os filhos mortos. Esse casal adotou a jovem irmã de Jeziel como uma filha querida. (6)

Estêvão, ou Jeziel, enfrentou com coragem e grande fortaleza moral as provações que a vida lhe reservara. Nas galés romanas o valoroso seguidor do Cristo foi submetido às mais ásperas privações, mas, estoicamente, tudo suportou, jamais perdendo a fé em Deus.


Voltando de Cefalônia, a galera recebeu um passageiro ilustre. Era o jovem romano Sérgio Paulo, que se dirigia para a cidade de Citium, em comissão de natureza política. […] Dada a importância do seu nome e o caráter oficial da missão a ele cometida, o comandante Sérvio Carbo lhe reservou as melhores acomodações. Sérgio Paulo, entretanto, […] adoeceu com febre alta, abrindo-se-lhe o corpo em chagas purulentas. […] O médico a bordo não conseguiu explicar a enfermidade e os amigos do enfermo começaram a retrair-se com indisfarçável escrúpulo. Ao fim de três dias, o jovem romano achava-se quase abandonado. O comandante, preocupado por sua vez, com a própria situação e receoso por si mesmo, chamou Lisipo [feitor da galera], pedindo-lhe que indicasse um escravo dos mais educados e maneirosos, capaz de incumbir-se de toda assistência ao passageiro ilustre. O feitor designou Jeziel, incontinenti, e, na mesma tarde, o moço hebreu penetrou o camarote do enfermo, com o mesmo espírito de serenidade que costumava testemunhar nas situações díspares e arriscadas. (8)


Estêvão cuidou do romano com extremada dedicação, conquistando-lhe a simpatia. Entre ambos estabeleceu-se laços de amizade sincera, de sorte que usando do prestígio político que possuía, Sérgio Paulo obteve a libertação do seu dedicado enfermeiro, fazendo-o aportar em Jerusalém. (9)

Estêvão chegou em Jerusalém extremamente enfermo, pois contraíra a estranha doença que atingira o seu libertador. Um desconhecido, denominado Inineu de Cretona, encaminhou a Efraim, um cristão, conhecido como seguidor do “Caminho” (designação primitiva do Cristianismo) que, por sua vez, o conduziu à “Casa do Caminho”, moradia do apóstolo Pedro, transformada em local de atendimento a todos os necessitados. (10)

Na Casa do Caminho, Estêvão recebeu o amparo que necessitava, encontrando no apóstolo Pedro um verdadeiro amigo, que lhe prestou esclarecimentos a respeito de Jesus e da sua iluminada mensagem de amor. (12)

O valoroso Simão Pedro, após tomar conhecimento do drama vivido por Jeziel, desde a perseguição ocorrida em Corinto até a liberdade alcançada por intercessão de Sérgio Paulo, recomenda-lhe manter-se em anonimato, afirmando:


[…] Jerusalém regurgita de romanos e não seria justo comprometer o generoso amigo que te restituiu à liberdade. […] — Serás meu filho, doravante — exclamou Simão num transporte de júbilo. […] — Para que não te esqueças da Acaia, onde o Senhor se dignou de buscar-te para o seu ministério divino, eu te batizarei no credo novo com o nome grego de Estêvão. (13)


A partir desse momento, Estêvão absorveu-se no estudo dos ensinos do Cristo, participando da difusão da mensagem da Boa Nova na modesta moradia da Casa do Caminho, cujos serviços de alimentação, enfermagem e de semeadura da palavra divina cresciam celeremente.

Com a ampliação dos serviços prestados à comunidade, surgiu, então, a necessidade de dividir as tarefas, evitando que um servidor ficasse mais sobrecarregado que outro.


Na primeira reunião da igreja humilde, Simão Pedro pediu, então, nomeassem sete auxiliares para o serviço de enfermarias e refeitórios, resolução que foi aprovada com geral aprazimento. Entre os sete irmãos escolhidos, Estêvão foi designado com a simpatia de todos.

Começou para o jovem de Corinto uma vida nova. Aquelas mesmas virtudes espirituais que iluminavam a sua personalidade e que tanto haviam contribuído para a cura do patrício, que o restituíra à liberdade, difundiam entre os doentes e indigentes de Jerusalém os mais santos consolos. […] Simão Pedro não cabia em si de contente, em face das vitórias do filho espiritual. Os necessitados tinham a impressão de haver recebido um novo arauto de Deus para o alívio de suas dores.

Em pouco tempo, Estêvão tornou-se famoso em Jerusalém, pelos seus feitos quase miraculosos. Considerado o escolhido do Cristo, sua ação resoluta e sincera arregimentara, em poucos meses, as mais vastas conquistas para o Evangelho do amor e do perdão. (14)


2. Estêvão, o primeiro mártir do Cristianismo


Após a crucificação de Jesus numerosos judeus se converteram ao Cristianismo. Os sacerdotes e membros do Sinédrio, entretanto, temiam que a propagação dos preceitos cristãos provocasse desestabilização no Judaísmo.

Sendo assim, iniciou-se um movimento de perseguição aos cristãos, a princípio realizado portas a dentro das sinagogas, posteriormente em público, nas ruas e no interior das residências, durante as festividades corriqueiramente, ou nas atividades diárias.


Vieram então alguns da sinagoga chamada dos Libertos, dos Cirineus e Alexandrinos, dos da Cilícia e da Ásia, e puseram-se a discutir com Estêvão. Mas não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito que o levavam a falar. Pelo que subornaram homens que atestassem: “ouvimo-lo pronunciar palavras blasfematórias contra Moisés e contra Deus.” Amotinaram assim o povo, os anciãos e os escribas e, chegando de improviso, arrebataram-no e levaram-no à presença do Sinédrio. Lá apresentaram falsas testemunhas que depuseram: “Esse homem não cessa de falar contra o Lugar Santo e contra a Lei. Ouvimo-lo dizer que Jesus Nazareno destruiria este Lugar e modificaria as tradições que Moisés nos legou”. Ora, todos os membros do Sinédrio estavam com os olhos fixos nele, e viram-lhe o rosto semelhante ao de um anjo. (1)


Essa farsa montada contra Estêvão, foi apoiada por Saulo de Tarso. O apóstolo dos gentios aparece no cenário da história cristã como o principal elemento do julgamento, condenação e morte, por apedrejamento, de Estêvão, considerado o primeiro mártir do Cristianismo.

Esses fatos aconteceram no ano 35 de nossa era.


O jovem Saulo apresentava toda a vivacidade de um homem solteiro, bordejando os seus trinta anos. Na fisionomia cheia de virilidade e máscula beleza, os traços israelitas fixavam-se particularmente nos olhos profundos e percucientes, próprios dos temperamentos apaixonados e indomáveis, ricos de agudeza e resolução. Trajando a túnica do patriciato, falava de preferência o grego, a que se afeiçoara na cidade natal, ao convívio dos mestres bem-amados, trabalhados pelas escolas de Atenas e Alexandria. (15)


Chegando a Jerusalém, vindo de Damasco, Saulo se encontra com o amigo Sadoc que lhe fornece informações a respeito de Estêvão e o efeito que este provocava nas pessoas. Cheio de zelo religioso, interpreta equivocadamente as preleções de Estêvão, considerando-o blasfemador. Influenciando o Espírito de Saulo, acrescenta:


— Não me conformo em ver os nossos princípios aviltados e proponho-me a cooperar contigo […], para estabelecermos a imprescindível repressão a tais atividades. Com as tuas prerrogativas de futuro rabino, em destaque no Templo, poderás encabeçar uma ação decisiva contra esses mistificadores e falsos taumaturgos. (16)


Tempos depois, num sábado, Saulo e Sadoc se dirigem até a humilde igreja de Jerusalém para ouvirem a pregação de Estêvão. Os apóstolos Tiago Maior, Pedro e João surpreenderam-se com a presença “[…] do jovem doutor da Lei, que se popularizara na cidade pela sua oratória veemente e pelo acurado conhecimento das Escrituras.” (17)

A despeito de ter ficado impressionado com a pregação de Estêvão, Saulo interpela o expositor, por meio de ríspida conversa, na tentativa de desacreditá-lo perante a assembleia. Estêvão, porém, manteve-se sereno, respondendo com gentileza e firmeza os apartes do doutor da Lei.

Desse momento em diante destacam-se, nas sinagogas, os debates religiosos entre Saulo, o orgulhoso fariseu, e Estêvão, o humilde e iluminado cristão.

Gamaliel, o generoso e brilhante rabino, orientador de Saulo, sempre presente aos debates, contribuía com palavras ponderadas, buscando acalmar os ânimos.

Inconformado com as serenas proposições de Estêvão, Saulo perturbou-se, e, deixando levar-se pelo orgulho, denunciou Estêvão ao Sinédrio, onde montou um ardiloso esquema de condenação com apoio de amigos. (18)

Durante o julgamento, a defesa de Estêvão no Sinédrio foi brilhante, revelando a grandeza do seu Espírito. Teve oportunidade também de demonstrar o domínio que possuía das Escrituras, discursando com serenidade e segurança. (Atos dos Apóstolos, 7.11-54)

Foi, entretanto, implacavelmente julgado e condenado à morte por apedrejamento, homicídio aprovado por Saulo. (Atos dos apóstolos, 7.55-60) Mesmo sendo acusado de blasfemador, caluniador e feiticeiro (19) Estêvão manteve-se firme até o final, quando entregou sua alma a Deus.


Nessa hora suprema, recordava os mínimos laços de fé que o prendiam a uma vida mais alta. Lembrou de todas as orações prediletas da infância. Fazia o possível por fixar na retina o quadro da morte do pai supliciado e incompreendido. Intimamente, repetia o Salmo 23 de David, qual fazia junto da irmã, nas situações que pareciam insuperáveis. “O Senhor é meu pastor. Nada me faltará…” As expressões dos Escritos Sagrados, como as promessas do Cristo no Evangelho, estavam-lhe no âmago do coração. O corpo quebrantava-se no tormento, mas o Espírito estava tranquilo e esperançoso. (20)


Antes de emitir o último suspiro, Estêvão perdoa Saulo e os demais perseguidores, adentrando vitorioso no mundo espiritual. Para o futuro apóstolo dos Gentios, entretanto, iniciava-se a sua “via crucis”, marcada por uma dor extrema: acabara de perseguir, condenar e aprovar a matança do irmão de Abigail, o seu amor adorado. (21) Compreendeu, assim, que os seus sonhos conjugais e familiares estavam definitivamente comprometidos.



ORIENTAÇÃO AO MONITOR: Debater em grupo, e em plenária, características da personalidade de Estêvão, reveladoras da grandeza do seu Espírito.



Referências:

1. A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Atos dos apóstolos, 6.8-15.

2. XAVIER, Francisco Cândido. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 43. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Primeira parte. Capítulo 1 (Corações flagelados), p. 11.

3. Idem, ibidem - p. 13.

4. Idem, ibidem - p. 13-38.

5. Idem - Primeira parte. Capítulo 2 (Lágrimas e sacrifícios), p. 39-52.

6. Idem, ibidem - p. 55-57.

7. Idem - Primeira parte. Capítulo 3 (Em Jerusalém), p. 58-59.

8. Idem, ibidem - p. 61-62.

9. Idem, ibidem - p. 63-66.

10. Idem, ibidem - p. 68-72.

11. Idem, ibidem - p. 75.

12. Idem, ibidem - p. 74-79.

13. Idem, ibidem - p. 80-81.

14. Idem, ibidem - p. 82-83.

15. Idem - Primeira parte. Capítulo 4 (Nas estradas de Jope), p. 84.

16. Idem, ibidem - p. 90.

17. Idem - Primeira parte. Capítulo 5 (A preparação de Estêvão), p. 102.

18. Idem, ibidem - p. 120-121.

19. Idem - Primeira parte. Capítulo 6 (Ante o Sinédrio), p. 129-131.

20. Idem - Primeira parte. Capítulo 8 (A morte de Estêvão), p. 190.

21 Idem, ibidem - p. 191-196.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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